quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

69: O gourmet e a educação

É impressionante como aumenta o número de coisas gourmet: sorvete, suco, água, cerveja, matemática, cachorro-quente, filme e por aí vai. Até pipoca gourmet tem! Tem até livro gourmet sobre filme gourmet. Quer bicicleta gourmet? Tem também. Tudo que você imaginar tem do tipo gourmet, com pessoas gourmet conversando em fóruns gourmet daquele assunto gourmet. Até puta gourmet tem agora, como mostrou a série da globo. A coisa é um fenômeno, e suas conexões vão da comida até a oferta de emprego e a nossa educação – e não é de agora.
 
Acho que isso surge quando as necessidades básicas já tão supridas: uma carne mais cara vai bem só se não há fome e tá sobrando um dinheiro; uma cerveja artesanal só faz sentido se você já encheu a lata tantas vezes e pode pagar mais. Até aí tudo bem, mas o que acontece quando uma pessoa cujas necessidades básicas já foram supridas é aquela que escolhe o cardápio de pessoas que ainda têm necessidades?

Sempre falam que é importante conhecer nosso público-alvo para ser mais eficaz ao entregar alguma coisa e tal. Mas por que continuamos a ensinar literatura rebuscada a crianças que nem lêem o jornal?
 
Acho que alguém que já sabia bastante decidiu que ler ou escrever sobre futebol já não prestava ou nunca prestou, e aí resolveu servir seu cardápio requintado pra todo o mundo.  Decidiram que o funcionamento de um chuveiro, de um carro, de uma bomba d´água, do sistema elétrico da casa não são boas experiências práticas para se ensinar Física e, em vez disso, decidiram empurrar nas crianças equações cujo sentido elas não enxergam e que até hoje as traumatizam. Escolheram a Física puxada no azeite trufado.

Saímos do colégio sem saber fazer nada, e em pouco tempo lembramos de menos ainda. Qual é a eficácia disso? E a faculdade não é diferente: aprendemos teoria sem saber para que ela serve. É ensinada a ferramenta antes do problema. Qual é o valor de um martelo, se a gente nunca viu um prego ou uma chance de pregar coisa alguma?

Não se trata de desmerecer o conhecimento que estou mencionando - eu adoro literatura e a mais pura matemática abstrata e teórica- mas eu também tive dificuldades pela distância entre o que me ensinaram e o que era necessário na vida. Ninguém me disse como funciona um disjuntor, mas o campo elétrico entre placas infinitas uniformemente carregadas no vácuo...

Me parece que ignorar coisas tão próximas da realidade na hora de ensinar e forçar a barra com coisas complexas está criando pouco conhecimento prático e transformando Faraday e Machado de Assis em vilões da adolescência.

Acho que gourmetizaram a nossa educação muito antes do cachorro-quente, infelizmente, e eu gostaria de ajudar a reverter. Porque cada vez mais eu acho que o que eu faço ou escrevo não tem valor algum se ninguém conseguir entender.

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Não achei o filme Birdman sensacional não, mas é interessante e tem uma passagem relacionada ao texto:

"Riggan Thomson: This is my chance to finally do some work that actually means something.

Sam Thomson: "That means something to who? You had a career, dad, before the third comic book movie, before people started to forget who was inside that bird costume. You are doing a play based on a book that was written 60 years ago for a thousand rich old white people whose only real concern is going to be where they have their cake and coffee when it's over. Nobody gives a s*** but you! And let's face it, dad, you are not doing this for the sake of art. You are doing this because you want to feel relevant again. Well guess what? There is an entire world out there where people fight to be relevant every single day and you act like it doesn't exist. This are happening in a place that you ignore, a place that, by the way, has already forgotten about you. I mean, who the f*** are you? You hate bloggers. You mock Twitter. You don't even have a Facebook page. You're the one who doesn't exist. You're doing this because you're scared to death, like the rest of us, that you don't matter and, you know what, you're right. You don't! It's not important, okay? You're not important! Get used to it."