terça-feira, 8 de julho de 2014

68: chuva de aprendizado

Eu acredito que o sucesso de uma pessoa na vida depende muito d’ela ter errado nas horas certas e ter percebido isso pra evitar errar nas horas erradas. A gente aprende muita coisa lendo, estudando e coisa e tal, mas sobre algumas coisas a gente só aprende mermo com experiências passadas.

Provo o meu ponto: hoje tava chovendo e eu, com meu guarda-chuva estendido, quase que o encostei numa cerca-elétrica, porque ‘tava andando distraído. Seria trágico, além de ridículo. Mas daqui pra frente eu duvido não lembrar disso. Duvido. Minhas chances de sobrevivência agora são muito maiores. E, como sobreviver ao ataque de um guarda-chuva e uma cerca-elétrica conspiratórios pode ser considerado o maior dos sucessos de todos os tempos, meu ponto ‘tá provado. Pra algumas coisas a gente aprende muito mais o certo quando fez alguma vez o errado.

O exemplo é idiota, e os meus erros mais sérios são muitos e maiores, mas eu acho que serve pra ilustrar idéia, que acontece o tempo todo - na vida, por aí, no trabalho. A gente vive tendo uma chance aqui e outra ali de aprender com algum erro que tenha cometido. Sabendo aproveitar, elas seriam excelente aprendizado.

Acontece que tem esses detalhes: tem que perceber o erro e aceitá-lo. Mas a gente vive errando, e errando nas mesmas coisas, enquanto não quer enxergar o erro, ou quer continuar sendo enganado. E a maioria das vezes em que a gente se ferra acaba acontecendo por algo em que a gente já errou antes sem ter se ferrado.

Além disso, infelizmente não é sempre que a gente tem uma chance tão boa dessas de se aprender: errando primeiro, sem se fuder. Imagina quem não passou pela minha experiência antes e, distraído, encostou o guarda-chuva na cerca-elétrica? Sério mermo, cara. Coitado…

Acho que ter a chance de errar com algo sério sem que isso tenha conseqüências drásticas é uma oportunidade tão tamanha de aprender, que o Universo só distribui às vezes, meio pingado. E o pior é que, dessas poucas, menos ainda são aquelas em que consigo me ligar no que tá acontecendo e perceber o chamado.

Por isso, quando consigo, acabo tendo que escrever essas besteiras, já que me sinto grato e iluminado. Porque, se a gente tem muitas dessas chances e não as aproveita, chega uma hora em que a gente vai (e merece) ser castigado.

Então, Universo, é de verdade: meu muito obrigado!

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Um dos meus erros repetidos é ter perdido coisas por causa de HDs queimados. Agora, perdi acesso ao meu antigo blog, e fazia tempo que 'tava pra transferir os textos pra algum lugar para não perdê-los. Resolvi tomar vergonha, e hoje fiz isso. Este é o novo blog, mais moderno e tal, que já tem todos os textos antigos, e em que eu começo a escrever hoje.

Outro erro repetido - e antigo pra cacete - é dormir tarde e pouco. Mas hoje tô grato ao Universo e será diferente.

Já o Felipão... errou em todas horas em que podia, e não aproveitou nenhuma. 7x1 é piada do Universo, que responde bruto às vezes.

Rodolpho de Siqueira


67: Porque sim não é resposta

Sexta-feira, Junho 21, 2013 

Há muito tempo, em Brasília, eu participei de uma manifestação do Movimento Passe Livre, o mesmo que começou essas manifestações agora. Juntei lá com um monte de gente e gritei que ia “pular a roleta sim, porque meu dinheiro não é capim”, mas foi só aquele dia de apoio que eles receberam de mim. Resolvi não voltar mais, porque o tipo de reivindicação não fazia muito o meu tipo. Fui embora pra casa - sem deixar, é claro, de pular minha última roleta - e não voltei nos dias seguintes. 


Daquela vez, já não me lembro se o preço da passagem caiu, mas, dessa vez, as manifestações deram certo: recuaram os aumentos dos preços e deram início a várias outras, por mil outros motivos. Acontece que esses mil motivos, eu acho, podem justamente fazer com que essas outras manifestações não tenham sucesso – ao contrário da passagem.
Acho que manifestações sem objetivo claros fazem uma auto-sabotagem: logo logo as pessoas já não vão mais pras ruas simplesmente por não saberem até quando ou por que deveriam continuar indo. 


Pedir faculdades de boa qualidade é um objetivo louvável, mas é um objetivo um tanto subjetivo: o que, exatamente, é uma faculdade de boa qualidade? Pedir isso também não é nada pragmático: vamos acabar saindo das ruas pelo cansaço muito antes de poder perceber se fomos ou não atendidos com qualquer mudança na qualidade de ensino. 


Pedir o fim da corrupção é também, antes de qualquer outro, um excelente motivo pra se protestar no Brasil. Mas como vamos saber se já é hora de ir embora com um pedido tão amplo?
Já viu alguém fazer greve de fome pedindo o fim da corrupção mundial? Claaro que não... porque o cara precisa de um objetivo mensurável, que é pra saber logo se já pode comer. Se greve de fome fosse feita por isso, iria beirar o ridículo, de tanta desistência. E aí o cara desiste e fica provavelmente tudo igual. Já nós, mesmo comendo muito dogão, quanto tempo vamos aguentar ficar na rua sem saber o que esperar? 


Acho que o foco tinha que ser em objetivos mais simples e claros, alguns já mencionados. Pra mim seria uma boa, por exemplo, ficar sentado no congresso, pulando corda, jogando bola no gramado e fazendo churrasco na laje ali do lado das bolinhas todo dia até que aprovem o fim do voto secreto deles. Não aprovaram? Então não vão sair daí, e nem vão comer picanha. E depois dessa só saem com o fim da PEC 37. 


Tendo conseguido isso, aí a gente descansa uns dias e tal, e depois passa a cantar Florentina, do grande mestre Tiririca, 24h por dia no megafone em frente ao Palácio do Planalto até que sejam aprovados x% do orçamento para a educação. Se isso não resolver, a gente dança Macarena. Mas o ponto é que a brincadeira só acaba quando o objetivo, simples e claro, for atendido. E, enquanto isso, tome Florentina... 


Acho que essas manifestações, é claro, têm sua validade e seu impacto, e agora já tá provado mais uma vez o poder de movimentação das pessoas. Ainda assim, acho que falta usar a ferramenta de um jeito mais direto, pra conseguir alguma coisa concreta de fato. Não precisa de líder nenhum, nem muito menos dos meus exemplos patéticos. Mas pra mim, com certeza, é preciso definir melhor as reivindicações, porque “um objetivo, quando bem definido, já está quase atingido”. 


Enquanto foi só pela passagem, tava tudo bem claro e acabou dando certo. Quando foi pelas Diretas Já, também. Quando foram os caras-pintadas contra o Collor, também. Por que não continuar bem definido com o resto? Eu sei que eles só sabem pensar se for pra encher o próprio bolso. Mas, com a ajuda dos universitários, deixando bem claro o que é pra fazer, talvez eles façam uma força lá e consigam finalmente entender. O negócio então é pintar a cara de novo, mas escolhendo e sabendo exatamente o porquê.

Rodolpho de Siqueira


66: Método

Domingo, Março 04, 2012 

Eu desde cedo sempre fui muito questionador. Sempre fiz mil perguntas a mim mermo – e algumas, em muito menor quantidade, aos outros – e sempre tentei respondê-las. Acabei mais tarde achando na Ciência e na Engenharia o lugar em que eu mais me adequava. Hoje, estou prestes a trabalhar com controle, automação e otimização de processos, o que vai me levar a usar ainda mais meu lado analítico – dessa vez, não só por curiosidade, mas por profissão.

Há quase exatamente um ano, consegui o que era preciso pra entrar nesse meu trabalho, e foi também usando o lado analítico. Racionalização do tempo, estudo de leis fundamentais, e consegui. Tudo do pouco que consegui profissionalmente, foi assim também. É isso que eu faço. E acredito que a análise racional é a melhor ferramenta que a gente tem pra tentar solucionar alguns dos problemas que a gente encontra. Não tenho dúvida.

Acontece que o pensamento analítico já me deu muitos bons resultados sim, mas, por outro lado, nunca me deu um sorriso calculado. Nunca encontrei alguém interessante num dia premeditado. E, se tivesse planejado, não seria no carnaval - no entanto já o foi, e do jeito mais inesperado. As vezes que dormi mal por estar com o inconsciente cheio de problemas de algoritmos nunca se compararam àquelas em que pouco dormi por problemas de quem está apaixonado. Eu vejo beleza na física, mas não mais do que nos quadros. Eu acho a lógica bonita, mas com ela nunca lacrimejei como num filme inspirado. Nunca me arrepiei fazendo conta, e já me arrepiei tantas vezes ouvindo ou tocando música, que perdi as contas.

O método me serviu de muitas formas, mas inclusive me serviu pra ver que ele às vezes não serve pra nada. É só fazer as contas do último parágrafo. Então ainda bem que meu cérebro tem dois lados, e ainda bem que consigo perceber e senti-los mermo sem ter de contá-los.

Rodolpho de Siqueira


65: muda 

Quarta-feira, Novembro 30, 2011 

ultimamente as tais das clouds por aí tão fazendo a nova onda da internet. é iCloud daqui, cloud da amazon lá, e essa é uma idéia que eu acho interessante, vendo como um cara de computação. é uma das coisas que eu paro e penso às vezes no porquê de não ter pensado antes. com o aumento da velocidade de download, pra que ter algo instalado em um único hd, fixo em casa? é só ter um meio de baixar o conteúdo, que ele tá ali em qualquer lugar que seja, rapidamente na tua mão. ter que guardar menos coisas e não ter de se preocupar em carregá-las contigo pra poder usá-las é uma coisa que simplifica muito as coisas. não pensei nisso antes - nem vô falar disso agora.


não pensei nisso antes, não, mas só com relação à computação. parei pra pensar e vi que essa idéia num era assim tão nova, nem tão original. eu já me mudei muitas vezes nos últimos anos, e em uma delas eu reparei que tinha mais livros pra carregar do que roupas - e muito dos livros eram muito novos, sem usar, enquanto muitas das roupas eram muito velhas, usadas demais. um pouco antes dali, mas principalmente dali em diante, fui tentando me livrar do máximo de coisas que eu pudesse. pros livros eu arrumei um leitor digital, e pras músicas e filmes virei pirata de vez - nada de cedes. sô muito novo pra ficar carregando mil coisas, e então qualquer mudança passaria ser muito mais fácil. não virei nenhum pirata, que mora aí em qualquer lugar, mas ganhei certa mobilidade. e foi também por razões de mobilidade que sempre resolvi morar em apartamento mobiliado - e mobiliado pouco! até nisso faz muito tempo que prefiro muito menos: um lugar mais limpo, com menos coisas entulhadas e com menos móveis, pra mais mobilidade. qualquer coisa, se fosse mudar, era só levar as roupas, que os móveis já tavam lá em outro lugar. foi o jeito que eu dei, já que eu não posso guardar cuecas num servidor na internet - e não, eu não tentei.


acho que todo o mundo deveria se mudar de vez em quando - primeiro de casa, nem que fosse pra voltar na semana seguinte; depois de hábitos, só pra ver como é bom se livrar de algumas coisas e lembranças velhas e de pouca importância. acho que faz bem pra mim, e deve fazer bem pra quem ganha minhas coisas e roupas, e pra sustentabilidade - dos recursos e, no meu caso, da pirataria… só sei que talvez seja só coisa de fase, de idade, não sei. talvez mais pra lá do meio do caminho, uma casa com decoração antiga, cheia de coisas tipo a da minha avó, pode até ser que seja boa. deve ser pra guardar lembranças, reviver coisas e coisa e tal. mas por enquanto eu ainda tenho mais lembranças pra criar do que aquelas que eu já tenho pra lembrar. e é muito bom ter, sei lá, só uma mochila e umas poucas bugigangas pra poder pegar, sair e me mudar daqui pra lá. daí me mudo com a cabeça meio voando, mas vô andando, com chinelo no chão, contando um pouco com a sorte, pensando na vida e botando a vida na nuvem, que não é iCloud nem é a onda forte, mas tem sido o sucesso do meu verão.

Rodolpho de Siqueira


64: Saindo de casa(l)

Sexta-feira, Agosto 19, 2011

Ficam todos em um site, com fotos bonitas, querendo parecer perfeitos. Daí tu olha daqui, olha de lá, acha alguma coisa interessante, e quem sabe pensa em alguma coisa e tal, quem sabe ligar ou uma mensagem mandar. Dependendo, tem resposta. Quem sabe até rola de ir ver, encontrar. Porque de longe não rola, porque de perto o outro é muitas vezes pior do que parecia lá. Então vamo' de perto, mas não rola de concluir nada antes d'aquele joguinho rolar. Os dois fingem que nenhum tá querendo tanto, e cada um tenta se economizar e seu passe valorizar. E se tu acha que eu tava falando de facebook e pessoas, é porque tu nunca procurou um apartamento no Rio pra alugar.

Se tu é homem e acha que mulher é difícil, é porque tu ainda não tentou pegar um apartamento. Eles 'tão tão exigentes, com uma fila tão grande de gentes, que um apartamento de Botafogo tá se achando mais que a carioca mais gostosa da praia de Ipanema. Mas o pior é que, além disso, apartamento só quer saber de dinheiro: quais são teus imóveis, onde é que tu trabalha, quem é teu fiador? E, mermo que tu trabalhe bem, preferem que tu seja velho também. Tão querendo dar o golpe do baú, só pode. Contrato de trinta meses, só tendo nos encontrado uma vez? Quer casar sem nem tomar um chopp? Eu sei que tu não tá podendo sair, então não rola um cineminha, em casa… não? Num deu. Quero saber como é assistir filme contigo, pô, pra ver se vô me sentir confortável e tal… Tô pedindo demais? Beleza não é tudo não, cacete! Cadê teu interior? Como eu vô saber se tu era só fachada ou se tinha algo quase explodindo dentro de ti, que ainda vai me dar dor de cabeça no final? Tá foda; assim num dá. Como diria o filósofo: "Quer me fuder, me beija". Ou pelo menos me dá um desconto, ou me deixa dormir uns dias no sofá.

Eu já falei aqui uma vez da velha cardidança da cadeira em que nunca há lugar pra nossa bunda, né? Ela não chega a ser um problema. Eu também gosto de dançar, e tá tudo tranquilo. Muito mais difícil tá brincar de gente com esses apartamentos mercenários. Difícil tá encontrar uma casa. Se eu encontrar uma logo, passo a acreditar em qualquer coisa. Talvez até que a mulher da minha vida, que eu nem sei quem é, andou procurando pessoas, olhou meu facebook e anda pensando em me comprar com seus milhares em notas de charme - mas não sem antes fazer um joguinho. Passo a acreditar sim, ué. Tá achando ridículo? Eu disse que acreditava em qualquer coisa, se achar o apartamento. Porque aí, mermo sendo mentira, teria um sofá de verdade, macio e que fosse meu, pra eu sentar minha bunda não metafórica. Se eu gostar dele, 30 meses são pouco, e aí eu deito enquanto danço, escrevendo essas coisas bizarras, esperando a outra descadeirada.

Rodolpho de Siqueira


63: exagero

Domingo, Julho 24, 2011 

eu posso dizer que namorei muito na minha vida e tive relacionamentos sérios, mas descobri que conheço um pouco do outro lado. descobri que tenho com o sushi uma relação de sexo casual e exagerado: quando fico muito tempo sem comer, quero loucamente; quando como, é até cansar; quando acabo, é aquela coisa: cadê o botão pra ele sumir? é o garçom! "quer mais sushi?" não quero não! pode levar esse daqui; leva ele pra casa, que eu vô pra minha dormir! fico parecendo um vadio da culinária oriental. se uma peça de sushi pudesse, me dava um tapa na cara e gritava, contanto pras outras, pra elas nunca mais me deixarem comê-las.

esse é só mais um dos tantos exageros que cometo, e que imagino serem comuns. alterno entre tempos em que não estudo nada, nada, pra depois, quando as provas chegam, ficar só lendo feito maluco - e é claro que a estória se repete: quando elas vão embora, é claro que falar em estudar é piada. imagina oferecer emprego pra um escravo recém-alforriado: "tu tá livre, mas tenho aqui um trabalhinho pra ti!" e o escravo: "haha! muito boa, seu zé!"

meu trabalho começa oficialmente no próximo vez, e, agora que tá tudo certo, tranco o mestrado pra ficar numa extrema maciota pelos últimos dias. depois, tô um tanto ferrado pra cacete.

durante a semana, tento levar uma vida semi-budista. no fim de semana, mudo de religião e fico semi-hedonista. durante a semana, bebo água. no fim de semana, bebo o óbvio. durante a semana, durmo pouco. no fim de semana, durmo por todos vocês.

às vezes penso se essa alternância não tá errada e se eu não deveria levar um caminho mais equilibrado, mais constante. até agora, não consegui. vai ver essa alternância exagerada significa vida, não sei. talvez não seja; só sei que uma constância total, é claro, com certeza significa morte - tanto pra um lado, quanto pro outro: se tu não faz nada o tempo todo, não vive; se tá sempre na porralouquice, acaba morrendo.

por outro lado, acho que quem vive estritamente o caminho do meio desde moleque deve ficar meio velho meio cedo. acho que dá pra eu deixar pra viver o caminho do meio quando eu já tiver mais pra lá do meio do caminho - tipo lá pelos 50. até lá, exagero pra um lado, pro outro, e na média fico no meio.

não tendo nenhum absurdo talento e só exagerando alternadamente, passo fácil dos 27, e com certeza chego lá. meu exagero alternado é moderado se comparado aos exageros constantes que a gente conhece; não tem pra que me preocupar.

então por mim mermo eu fico tranquilo. só é uma pena, mais uma vez, ver gente talentosa assim morrer; isso eu tenho que te falar.

Rodolpho de Siqueira


62: Desejando o jiló


Sexta-feira, Maio 13, 2011

Eu já disse aqui uma vez que, depois que a pessoa morre, pra maioria das que sobreviveram ela fica muito melhor – e tudo de uma vez! sem nem ficar melhor ao ir envelhecendo, como se fosse vinho. Mas uma outra coisa que eu não disse ainda é que ela fica melhor mermo é quando tá de longe. A gente é míope, eu acho. Eu sei que eu dizer isso agora não é novidade nem nada, mas eu só escrevi umas duas novidades na vida, e manterei a tradição de não fazê-lo. E o leitor com certeza não precisa de mim pra falar isso, porque já deve ter notado. Mas, se não notou, eu ajudo. É só a gente fazer uma procura rápida, que descobre: no Orkut tem uma comunidade, cheia de gente pra cacete!, que se chama “Quem é legal mora longe”, ou algo assim. Viu? Ela só deveria se chamar “Quem mora longe é legal”, pra ficar mais adequado.

A ajuda continua: eu acho que uma certa distância entre o admirador e o admirado é quase uma condição necessária para essa admiração exista. Quase. Não tô falando só de distância geográfica, apesar d'ela poder ajudar. Eu tô falando de uma distância no conhecer, uma ignorância do admirador com relação à verdadeira coisa admirada. Não é à toa, eu acho, que os grandes ídolos estão todos na mídia, na internet ou na tevê – pode perceber. Quer distância maior que essa – a distância sofá-televisão ou cadeira-pecê? Quem tá lá é inalcançável e, justamente por isso, perfeito. Se a pessoa passa a conhecer detalhes demais da vida do ídolo, pela minha hipótese, ele vai deixando de ser perfeito, e deixando de ser ídolo. Pra ser perfeito, tem que 'tar de longe, que é pra não dar pra enxergar os defeitos – e pensando assim a morte é só um caso particular de distância, maior ainda que a distância sofá-televisão! E todos os santos agradecem. Já pensou beatificar alguém vivo? Vai que o cara erra, faz besteira? Já pensou? “Que nada, cara... ele é alcoólatra e bate na mulher sim... mas, pô, ele fez aquele milagre lá!” Pensou, né? É melhor esperar morrer...

Se a gente conhece bem uma coisa, é fácil enxergar o que tem de errado com ela. Se a gente vê aquilo muitas vezes, a ponto de conhecer bem, uma hora a gente enjoa e enxerga o que não enxergava antes. Se até lasanha da Sadia enjoa se comida todo dia, qual a chance de tu achar uma pessoa perfeita pro resto da tua vida? A não ser que ela seja feita de arroz com feijão, tu provavelmente vai enjoar e deixar de admirar – e, em alguns casos, de comer!

Dado que tu tá enjoado, e enjoado de uma dada coisa, qualquer outra coisa fica melhor que aquela. Se só tiver lasanha pra comer, e tu tá enjoado de lasanha, o jiló parece incrível. O celular da outra pessoa é muito mais bonito. A namorada do outro é muito mais bacana. E assim parece que nada tá certo.

Não é certo, no entanto, que tu vá realmente enjoar. Eu disse “provavelmente”, e antes disso disse que a distância era uma condição quase necessária. É possível que a gente não enjoe, claro. No caso da lasanha, se a gente comer outras coisas, intercalando, leva a vida inteira sem enjoar dela. No caso de pessoas, repetir a sugestão acima substituindo “lasanha” por “pessoas” pode funcionar bem pra algumas pessoas. Mas também acho possível manter a admiração por alguém sem intercalar ninguém com coisa alguma.

Os meus pais são quem eu conheço de mais de perto, há mais tempo, sei todos os defeitos, não os intercalo com outros pais ou outras lasanhas, eles não são feitos de arroz nem feijão, e não deixo de admirá-los. Acho que a admiração mais verdadeira vem quando a gente vê as boas qualidades e as más, mas é capaz de perdoar as últimas, se as primeiras forem maiores. É lembrar do bom pra não enjoar. A diferença com os pais é que essa admiração já é meio intrínseca, na maioria dos casos. No caso de amigos, a gente escolhe aqueles dignos de admiração e de serem perdoados pelos defeitos - é uma família escolhida, como dizem. Já com marido e mulher, quase que por definição, é também um membro a mais escolhido para a família; é mais uma pessoa que, pelo lado bom, você julga digna de ser perdoada pelos defeitos de todo dia, e continua admirando até um certo dia.

Fazer isso, no entanto, é difícil pra cacete. Não é à toa que se tem tão poucos amigos de verdade e que muitos relacionamentos não dão certo. Continuar admirando alguém, vendo de perto todos os defeitos constantemente, e não enjoar é o mermo que perdoar todas e muitas vezes durante a vida - e, em alguns casamentos, até a própria vida acabar. Muito difícil. Por isso a gente, quando faz, faz com poucas pessoas. No entanto, parece que é uma necessidade nossa admirar algo ou alguém – imagina se tu achasse todo o mundo chato, burro, feio... então tem que arrumar um jeito mais fácil! Resolvido: com todas as outras que a gente ainda admira e acha interessante, ou a gente vê de longe e pode admirar pois não vê os defeitos, ou perdoa todos os defeitos uma única vez na vida - adivinha quando? exatamente quando a pessoa morre, pra depois então poder admirá-la. Muito mais fácil assim. Agora sim! tá tudo explicado pra mim.

Rodolpho de Siqueira

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É bom voltar aqui, hein.



61: Mais um (con)texto 

Terça-feira, Outubro 05, 2010 

Essa semana vai ter de novo jogo da selecção, o segundo com novo técnico Mano Menezes e tal. Vô aproveitar pra falar agora o que eu ia falar da ooutra vez, a primeira que a seleção jogou - mas não tem naada a ver com futebol. Naquela vez, nos dias em torno do jogo, o Mano fez um comentário sobre comprometimento que deixou todo o mundo viajando na tevê. Ele falou que "o porco dá parte de si pro omelete, e a galinha só dá o ovo". Daí ficou todo o mundo viajando sobre o que aquilo queria dizer, achando graça e tudo o mais. Fizeram entrevista com o povo na rua e a maioria, ao ser perguntada sobre qual dos dois participantes do omelete era mais importante ou algo assim, respondia que era o porco - afinal o porco dava parte do corpo! Beleza então. Só que que esse pessoal da tevê e esses comentaristas esqueceram de comentar que o Mano Menezes disse isso numa entrevista em que ele comentava sobre a importância do tal comprometimento - aquela palavra que o Dunga usava tanto pra justificar suas asneiras. Ele dizia que, na visão dele, comprometimento não era algo tão diferente do que as pessoas fazem no seu dia-a-dia. Dizia que "Comprometimento é fazer bem a sua parte.", e então contou o tal papo sobre o omelete com bacon. Depois disso, eu não sei mais o que ele disse - todos os vídeos terminam por aí -, mas me parece claro que ele fosse continuar a conversa dizendo algo como "apesar de a galinha ter dado só o ovo, e o porco ter dado o corpo, cada um fez bem sua parte; isso é que é importante". A não ser que alguém goste de omelete com ovo de porco e coxa de galinha, me parece fazer sentido! Eu não sei se ele chegou a dizer isso mermo, ou se era essa a intenção. E nem tô aqui pra ficar falando o quão ruins e fãs do óbvio e da moda e de tudo o mais de ruim eu considero os comentaristas esportivos no geral. Mas o fato é que ao comentar isso na tevê esqueceram completamente do que ele disse antes, e esqueceram que fora de contexto nada faz sentido ou tem significado - na verdade pode até ter, mas completamente alterado.

Pra mim o contexto é uma das coisas mais importantes na hora de interpretar alguma coisa. A interconexão das coisas é o que me faz melhor entendê-las e pra mim é o que dá sentido a elas. Se tu vai a algum país qualquer fictício a que tu nunca foi nem conhece e, ao te vender uma caneta, uma pessoa diz que custa exatamente treze tcheroleros, tu não vai ter a mínima remota ideia de se aquilo é caro ou não. Mas daí se, junto com isso, te dizem que um carro custa catorze tcheroleros, então tu vai concluir que a caneta era muito cara - ou então vai comprar um bocado de carros! O importante é que a essa altura tu vai ter entendido melhor qual é o significado daquilo, e é sempre assim que as coisas acontecem. O aprendizado de muitas coisas se dá exatamente dessa forma. Aprender vocabulário até é meio assim: ninguém lê no dicionário o significado de uma bola; tu tá ali pequenininho e, de repente, tua mãe te dá o negócio mais divertido da Via-Láctea, e quando tá perto dele fala "bola" daqui, "bola" de lá, "bola", "bola"… aprendeu.

Hoje eu gosto muito de História e o papel dela, pra mim, é esse também: pôr as coisas em contexto. Antes eu aprendia as paradas no colégio e era um tal de decorar data que enchia o saco. Daí a escola se modernizou, acabou com aquilo, e eu comecei a aprender um monte de coisa, lembrar de nomes, coisas que tinham acontecido, mas sem nunca estabelecer direito relações entre o que veio antes, o que veio depois e coisa e tal. Foi assim que eu percebi que eles não tinham se modernizado tanto assim. Então eu voltei a lembrar as datas, comecei a fazer conexões, e fiquei feliz pra sempre - tu devia tentar; funciona! pelo menos pra mim.

É só com a História do Brasil, por exemplo, que eu acho que a gente pode vir a entender esse país direito. Com ela dá pra saber de onde a gente veio, por que caminho passou até chegar aqui e tudo o mais, tudo em contexto. Com o o pouco que eu sei dela já ajuda a não esquecer o que o Lula falou antes de vê-lo falar sobre futebol, omelete ou qualquer coisa. Já ajuda a lembrar que o Brasil já teve um monte de ministro antes considerado importante e famoso, mas não houve nenhum que me dissessem ser da Casa Civil e diretamente responsável por algo grandioso. Já ajuda a lembrar o que os últimos ministros da Casa Civil fizeram, e o que a Dilma foi antes de chegar lá. Já não dá pra vir querer me enganar.

É só com contexto que eu consigo entender melhor as coisas; não tem jeito. E é também só com contexto que eu consigo entender a mim mermo, o meu próprio significado - embora eu saiba que isso soa dramático. Eu olho os números do país e vejo que somos aí por volta dos 190 milhões de pessoas, e que 1 comparado a 190.000.0000, é pouco, se colocado assim em contexto. Mas vejo que, em 2008, mais da metade dos eleitores não concluiu o ensino fundamental. Vejo que no meu país a população acima de 25 anos com ensino superior completo é em torno dos 10%, um baixo percentual, e mesmo assim tô com 23 e prestes a me formar e tal. Só assim entendo direito o meu papel nessa coisa toda de direitos e deveres, omeletes e comprometimentos. Vejo que faço parte da parcela mais privilegiada da população e que, se não fizermos nossa parte direito, quem a fará? Vejo que eu fui um dos que mais comeu do bolo todo, e que pra esse omelete sair bem feito é uma parte bastante grande aquela que eu devo dar. Não tem jeito. E eu tô cansando de promessas e juramentos, mas juro que vô tentar.


Rodolpho de Siqueira


60: Ubuntu 

Quarta-feira, Junho 23, 2010 

Uma amiga minha dia desses me contou a incrível história d'uma garota que gostava de tênis. Tê! Nis. E, nããão, amigos telespectadores, não é ténis de Wimbledon, desses que se joga com raquete. É um ténis, só um ténis, desses de botar no pé.

Ela sentia muita atracão por um tipo especial de tênis. E caso um cara viesse falar com ela usando outro tipo, ela mal dava atenção. Que coisa, não!? Eu achei isso um tanto quanto muito escroto pra cacete, assim de início, mas depois fui pensando e vi que era só um pouco. Fui pensando e vi que também me chama a atenção, claro, a roupa que uma mulher veste - mas também vi que sô incrivelmente mais tolerante, já que minha preferência é cérebro, rosto, bunda, peito, cérebro, barriga, bunda, pernas, bunda, cérebro, costas, cérebro, bunda, pééé… e daí sim! saia, calça, sandália, e eu juro que uma hora eu ia chegar no ténis. Eu ia chegar no tênis!

Supondo então que eu tenha chegado no tênis, não posso recriminá-la! Não tô nem sendo sarcástico, não. Só um pouco, talvez, não sei, quem sabe, mas o ponto é que ela pode 'tar certa. Ou, mais na verdade ainda, ponto mermo é que não tem certo nessa incrível história da menina que gosta de tênis e do ridículo conto do cara que gosta de cérebro com bunda. Não tem.

Eu fui mudando tanto na vida, já fiz tanta coisa diferente e já achei tanta coisa diferente, que hoje pra mim fica bem difícil achar algum comportamento errado intrinsecamente - bem, a não ser que aquilo faça mal a alguém. É claro que tenho minhas preferências - cér… bunda … tênis -, mas hoje me parece que, se eu recrimino muito a alguém, é quase como se 'tivesse recriminando a mim próprio em outra época.

É claro que tenho minhas preferências, mas elas próprias são até meio injustas. Se eu gosto de alguém com mais coisa na cabeça, e alguém que fala numseiquantas línguas e que gosta de tais bandas, se veste com tais roupas e tem tal/nenhuma religião me parece interessante, tudo bem, claro; mas não tá claro também que essa pessoa provavelmente teve uma educação parecidíssima com a minha? Se eu só gosto disso e recrimino ou até ridicularizo o resto, quem não nasceu no meu meio, quem tem mais ou menos dinheiro que eu ou quem tem uma cultura de outro país 'tá fadado ao meu desprezo. Cada vez menos quero isso.

Essa copa, na África do Sul tão misturada, e cheia de gente de todos os cantos, me fez também lembrar dessas coisas. Lá eles ainda têm suas preferências -às vezes discriminatórias ainda-, e na maioria dos casos negro não casa com branco e, espante-se, branco não casa com negro. Mas o importante é que eles, ou pelo menos as leis deles, já não permitem a humilhação daquilo que é diferente.

Cada vez mais quero viajar, conhecer e ver o que é diferente, pra quem sabe, de repente, recriminar cada vez menos a menina do tênis. E, como os africanos, mermo errando muito ainda, cada vez mais me convenço de que "sou o que sou só por causa do que todos nós somos.". E que é só por causa disso, e que não tem outro ponto.

Rodolpho de Siqueira

* * * * *

""Ubuntu" is an idea present in African spirituality that says "I am because we are" - or we are all connected, we cannot be ourselves without community, health and faith are always lived out among others, an individual’s well being is caught up in the well being of others."

http://en.wikipedia.org/wiki/I_Am_Because_We_Are


59: Caminho mais curto

Sexta-feira, Fevereiro 19, 2010 

Eu sempre acreditei em lutar pelo que a gente acredita, mas de vez em quando eu tenho minhas recaídas. Hoje, por exemplo, eu tive uma delas. Eu sempre acreditei que pra ir ao meu trabalho tem um caminho mais curto e rápido, e por um tempo insisti em seguir por ele. Acontece que ali tem um puto de um quero-quero que acredita que ali é um caminho mais curto, mais rápido e melhor pra ele criar os filhotes dele ou qualquer coisa parecida. Eu insisti umas vezes, e toda vez o bicho ameaçava, gritava, fazia o diabo. Daí foi numa dessas que eu pensei bem e resolvi ser corajoso: tomei coragem pra enfrentar a fera da minha preguiça gigante e fui pelo outro lado – mais longo e mais seguro; ótimo! Toma teu caminho, quero-quero de merda!

Ultimamente tenho feito as contas e decidido não decidir muito ao meu jeito as coisas, caso aconteça algo assim pra atrapalhar. Esse negócio de saber o que quer e lutar por aquilo é bom, mas só às vezes, como todos os outros bons e todas as vezes que eu já falei deles. Tenho visto seriamente o lado bom de não poder escolher ou de deixar outra coisa escolher por mim. Não é nada tão louco, não, e eu até demonstro: se vô pegar um filme e fico na dúvida entre dois, fico doido pro carinha do balcão dizer que um deles foi perdido ou algo assim. Muito bom, muito bom; dá o outro então! Não podia ser tudo assim tão fácil? Num sei porque tudo que é coisa sempre teima em ter lados bons e ruins, bicho. Num escapa nem a porra do caminho cheio de mato lá do trabalho!

Agora eu tô deixando o acaso decidir, quando consigo. Ou então deixo que os outros decidam por mim mermo. Agora já quase não discuto as coisas; pelo menos não como antes, e não mermo. Se tu é daqueles que gosta de discutir, perdeu os bons tempos! Agora se eu encontrar uma tiazinha testemunha de Jeová por aí, querendo me converter, ela não consegue nem a pau. Não consegue, porque eu digo que sou o próprio Javé, se ela quiser - mas só se ela quiser! Se ela for ficar com raiva eu digo só que era amigo dele, e todo o mundo fica feliz.

Acho que eu não costumava ser assim pelo quê de falsidade ou omissão que me vinha à cabeça. Mas o negócio é que às vezes nem vale a pena, e é melhor seguir o caminho de menor esforço – em vez do mais curto! A Natureza parece fazer isso às vezes, e mermo assim ela é gente boa pra cacete – com exceção do quero-quero! Vô fazer também então, pelo menos às vezes. E depois de ter sido amigo de Jeová o resto vai ser moleza.

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Coldplay, me espera que eu tô chegando no Rio.

Rodolpho de Siqueira


58: Dirigindo com o alter-ego

Quarta-feira, Janeiro 27, 2010 

Uma vez na casa da minha tia eu pensei, ao ver uma pasta-de-dentes em cima da geladeira: " Bicho, isso é lugar de pasta? ". Depois, o grande otário – eu, no caso – lembrou que ele mermo tinha deixado a tal da pasta por ali. Parece mentira - e eu tendo um nariz deste tamanho... bem, tu acredita se quiser. Uma outra vez, nessa merma casa dessa merma tia, eu vim correndo atender o telefone e quase bato com o nariz na porta do armário, que ' tava aberta. Mas foi só quase: sorte delas - da porta e da tia, que ia perder a porta. E agora tu vê: fui fazer um favor, já que ninguém atendia o telefone, e ainda quase me machuco. Um absurdo; não é foda? Só não fiquei com mais raiva porque tinha sido eu o culpado de novo. Idiota. Um idiota, mas me deixa aqui ser honesto com relação às minhas idiotices: coitada da minha tia!

Umas outras vezes, vendo o trânsito dos carros, eu tive a ligeira impressão de que as pessoas certamente reclamariam delas próprias, caso tivessem a fantástica oportunidade de dirigir atrás delas próprias. Imagina a cena. Me parece que ninguém dirige como acha que os outros deveriam dirigir; a gente só não percebe. E o que me parece, aliás, é que ninguém age como acha que os outros deveriam agir; a gente só não quer perceber.

Umas muitas vezes eu me levantei da minha cadeira, fui à frente da sala receber a nota de mim mermo e constatei: "Tá precisando melhorar, hein, seu Rodolpho. "
Daí eu deixei de ser idiota por uns instantes, saí da sala e tive a ligeira certeza de que seria mais brando com os outros com relação a essas exigências. Concluí que não há nada mais justo, afinal, pelo menos até que eu mermo atenda à maioria delas.

E quando eu conseguir atendê-las, não exigindo muito de ninguém, espero não exigir dos outros a merma atitude em troca, também. Quer contradição e idiotice maior que essa? Não dá, não, rapá; e eu aposto até que não tem.


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Uma das coisas que eu espero de mim diariamente é conseguir dormir cedo. Grande ilusão; por que é que não desisti ainda? Só sei que, por enquanto, me perdôo: foi agora, com medo de dormir, que tomei coragem pra escrever. Vale a pena, e acontece de vez em quando.

Rodolpho de Siqueira


57: O emprego da propriedade intelectual

Sábado, Dezembro 05, 2009 

Já faz muito tempo que me questiono sobre a propriedade intelectual e seus lados bons e ruins. Sô defensor e usuário de muitas variantes de coisas livres e há algum tempo achava que isso era a solução pra muita coisa, até ideologicamente falando. Há um pouco menos de tempo, no entato, é que eu, como aluno de computação e pesquisador na área, fui vendo os outros lados da moeda - a minha moeda tem vários lados; qual o problema?- , e assim minha opinião foi mudando.

Não dá pra questionar, por exemplo, os lados bons que o software livre e tudo o mais relacionado têm. Eu sô completamente a favor, inclusive, de que todo o sistema informatizado do governo brasileiro fosse desse tipo; grande parte dos códigos livres, hoje, já é bastante confiável e, acima de tudo, tem custo quase zero. Um governo que queira conter os gastos e respeitar o contribuinte, pra mim, não tem melhor escolha.

O software livre, tendo uma licença que permite a alteração e colaboração de gente de tudo que é lugar do mundo - como estabelece a licença GNU, por exemplo -, atende rapidamente a demanda por atualizações e correções. Às vezes, também, devido à colaboração, softwares desse tipo são fornecidos em línguas que possibilitam pessoas de todas as origens usufruirem do resultado em sua língua nativa - coisa que muitos softwares pagos não são capazes de fazer. E o Ubuntu, talvez maior exemplo de software livre hoje, causou verdadeira mudança no uso de sistemas operacionais com esse tipo de ideologia.

Além disso, se eu for falar não só de benefícios práticos, mas do lado mais filosófico da coisa, não posso esquecer que é no mínimo meio bizarro que se produza algum conhecimento usando só coisas livres e, depois, queira-se cobrar por ele. É bizarro e até egoísta. E um dos maiores inventores e caras mais inteligentes que já houve, Benjamin Franklin, uma vez disse mais ou menos assim: "Como usufruímos das vantagens vindas das invenções dos outros, deveríamos ser gratos pela oportunidade de servir a outros pelas nossas próprias invenções; e deveríamos fazê-lo de graça e com generosidade". Fica até difícil discordar, né não? E assim eu venho concordando, então.

Às vezes, no entanto, me parece que o que pregamos por aí sobre a liberdade do conhecimento gerado não é bem isso com que acabei de dizer que concordo. Muitas das vezes me parece que cobramos o direito de exigir que as pessoas produzam conhecimento por generosidade - o que é bem diferente. Muitas vezes só se pensa em um dos lados e o povo meio que quer justificar pirataria e coisas do tipo com o argumento de que a propriedade intelectual não existe. Queremos tudo de graça! Me dá impressão até que seja parecido com a galera que quer passagem de graça, comida de graça e qualquer dia, quem sabe, até mulher de graça, mas sempre esquecendo que alguém, no fim, paga. Pra mim, tem que dar só pra quem realmente precisa, porque alguém sempre paga, no fim. E às vezes paga caro.

Não vô mentir, não: eu por exemplo baixo música pra cacete, filme pra cacete e muitas outras coisas pra cacete. Vô falar a verdade: acho que isso tem um lado muito bom e tem popularizado mais a cultura, sim. Acho inclusive que isso tudo é um caminho sem volta e que outros meios venda de conteúdo já vão surgindo por aí. Agora, dizer que isso tudo justifica é outra estória. E quando esses outros meio surgirem? Vamo dar um jeito de dar uma volta neles de novo, tudo justificado, afinal propriedade intelectual não existe?

No final alguém sempre paga, e eu acho que é preciso pensar nisso. Com música e arte eu acho que o caso é um pouco diferente, já que isso sempre se fez por prazer e talvez vá sempre continuar sendo feito - mas isso não justifica. Agora, com outros tipos de produção intelectual, o negócio é mais complicado. Nesse caso eu tento, juro que tento, não usar nada pirata. Atualmente eu só peco com dois programas! Olha aí... Mas isso é meio preocupante e tal. Não que a pirataria vá chegar realmente a falir as empresas de software; o que eu tô falando é da idéia. Se é justificável que o software seja livre, de forma forçada(!),e ninguém paga, quem é que vai querer investir bilhões pra um software inovador, em troca de nada?

E com os remédios? O Brasil teve, com José Serra como ministro da saúde, o melhor programa contra a Aids do mundo, se não me engano. Nosso país quebrou as patentes aqui dentro e conseguiu beneficiar muita gente que andava precisando, sendo tudo isso ótimo pra nós mermos. Mas e se todo país resolve fazer isso? Quem é vai querer investir bilhões pra curar doenças que exijam alto nível de pesquisa, mais uma vez em troca de nada?

No fim, sempre tem alguém que paga pelo almoço, isso sim. E eu acabei sem concluir nada a respeito do negócio todo, se é isso que o leitor quer saber, e nem tenho uma afirmação sobre a qual te convencer. Mas concluo sobre um pedaço do todo, que diz respeito a mim: a propriedade intelectual acaba, de alguma forma, garantindo o investimento na criação. Não fosse isso, quem é que ia pagar, pra um moleque como eu pesquisar, e vir outro moleque como eu pra baixar de graça lá? Ninguém ia. Deixa assim por enquanto, então, já que assim eu tenho emprego, apesar de não ter a solução.

Rodolpho de Siqueira


56: Especialidade

Sexta-feira, Setembro 11, 2009 

Faz um tempo que ouvi um amigo falar, ou alguém falar por ele, sobre sua especialidade - que de tal coisa ele não sabia, mas que outra coisa era a especialidade dele e numseioquê. Depois disso fiquei meio viajando e tal, coisa de moleque: mermão, o cara já tem uma especialidade! Eu, aqui do meu fim de curso, mal começo a decidir o que vô querer fazer da vida, e o cara lá já tem uma especialidade. E o pior é que eu mal começo a decidir o que aaacho que vô fazer d'um pedaaaço da minha vida, um pedaço que talvez nem dure muito, na verdade. Da vida toda, então, imagina aí! É que ao longo dela eu fui fazendo uma coisa, outra, e, quando descobria mais ou menos com elas funcionavam, mudava pra outra que não aquelas. Depois de uma certa idade, fazer muito de uma coisa só, pra mim, virou proibido. Teve uma época, antes, em que num era assim: eu já escrevi numa redação que meu sonho era ser campeão brasileiro de jiu-jitsu. Vê! Só uma criança mermo pra ser decidida assim - pode parecer estranho, mas eu tinha 7 anos; e o pior é que eu era bom, rapá... Daí o tempo foi passando e, em vez de campeão de jiu-jitsu, queria ganhar agora era no futebol. Era o primeiro sintoma, de muitos que ainda vieram: depois do futebol veio o canto; depois do canto, a natação; depois dela, o desenho, e isso, aquilo, e veio o violão... e nada. Em vez especialista em qualquer coisa, eu cheguei aos 22 anos fazendo um pouco de tudo, e sem saber tudo de nada.

Tem gente que critica isso e eu já até ouvi falar de uma tal de síndrome do pato, ou algo assim: ele nada mais ou menos, voa mais ou menos, quem sabe até bota ovo mais ou menos... algo assim. Acontece que ser especialista é saber cada vez mais sobre cada vez menos, isso sim, e isso sempre pareceu um saco pra mim. Meu prazer sempre foi aprender coisas novas, só pelo prazer de revirar o mundo. Assim eu fui revirando e virando, em vez de pato, um semiornitorrinco. E entre os bichos, pelo menos, fiquei com um mais interessante. Com pata de quem desenha, dedo de quem escreve, nariz de pica-pau e cabeça de engenheiro, fui me tornando um grande branco mestiço, totalmente misturado. Mas hoje já me parece, enfim, a hora de ir além em alguma coisa, me tornar um bicho mais alado. Pois nem o pato comum nem o ornitorrinco inteiro levantam vôo sozinhos. Nem com 22 anos, nem depois de formados.

Rodolpho de Siqueira


55: Dá teu jeito!


Terça-feira, Maio 05, 2009

Foi dia desses, sem ter nada na cabeça pra escrever, que eu arrumei um assunto sobre o qual eu podia enrolar; foi mais ou menos como uma das redações que eu fazia no colégio – sempre soube que me serviriam.

Andei pensando e concluí que talvez eu pudesse escrever justamente sobre não ter assunto pra escrever. Não é brincadeira, nem nada; é uma posição muito séria que eu tenho, e que já explico. Olha bem: pra mim, o jeito em que vem embrulhado o conteúdo é quase tão importante quanto ele - eu não tô falando (só) de mulheres! Sô capaz de achar, inclusive, que um jeito bem feito tem valor até sem conteúdo. E agora a justifico a idéia, e justifico logo, antes que me critiquem, com o crédito inquestionável de quem me fez pensar nela: ZezédiCamargoeLuciano. Unamimidade na filosofia nacional, ele uma vez disse que, se fosse Chico Buarque quem cantasse as letras escritas pela dupla, todo o mundo acharia poesia; mas, como – espante-se! - não é o Chico quem as canta, alguns o taxam de brega. Pensei, pensei e não pude discordar. Na verdade acabei sendo bem simpático a idéia, e acabei por testá-la; por isso vim contar.

O primeiro teste da hipótese foi positivo: fui simpático a idéia mas não tive interesse de ouvir as letras com mais calma, isento de preconceitos, pra ver se prestavam - afinal, ele canta d'um jeito brega pra cacete! Ele não poderia ter acertado melhor. Era agora quase uma teoria. Continuei pensando, testando além das mulheres, e vi que gosto de muitas coisas por uma estética fundamental – pelo menos pra mim, e que não sei explicar -, sem elas precisarem ter razão de ser, ou conteúdo pra fazer pensar. Achei fantástico, por exemplo, quando li que Matisse, ao ser questionado sobre o porquê d'ele ter pintado uma mulher de verde, respondeu sem hesitar: 'Não é uma mulher; é um quadro!' - ou algo mais ou menos assim, já que a empolgação foi dada por mim. Mas, quando fui conversar sobre isso com uns amigos, cismaram até o fim que as coisas tem de ter um motivo: 'O que o verde representa? O que isso quer dizer?'. Pra mim, sei lá. Pode querer dizer qualquer coisa, ou nada, mas acima de tudo foi o jeito que autor julgou interessante, e que intessante parece a mim. Não precisa ter porquê, não. É bonito! É como uma música cuja a letra a gente não entende, mas gosta mesmo assim. Qual o problema? Eu julgo muito importantes as letras, e presto atenção em quase todas – porque eu particularmente me interesso se tô dançando loucamente enquanto me chamam de filho-da-puta ou algo assim – e acho umas muito relevantes até politicamente. Mas, se eu sei que o cara tá falando nadacomnada e a música ainda me cativa, não posso gostar dela ainda assim? Há melodias simplesmente incríveis por si só, e acabou o assunto.

Na literatura, também, acontece isso comigo o tempo todo. Eu simplesmente gosto muito da forma com que as coisas são escritas. Concordo muito com Guimarães Rosa, que parece ter dito que 'cada palavra é uma poesia'. Isso é muito verdade. Há mil formas de se escrever uma mesma coisa, mas uma me parece muito melhor que a outra, sem dúvida. Eu posso e tento – e já disse isso aqui antes – ver beleza em algo que foi escrito ainda que não concorde com a idéia. Posso achar tudo uma besteira, mas o faço várias vezes achando que aquilo foi muito bem escrito. Eu, por aqui, me preocupo com a forma com que escrevo - e eu sei que ao leitor ingrato não parece, mas é verdade! Penso no que falo, mas também no como vou falar. Não fico, não posso, nem quero ficar por horas lapidando algo, como um parnasiano, mas, pra mim, como o texto flui influi muito no prazer que se tem ao lê-lo. Acho até que bem escrever pouco tem a ver com o assunto sobre o que se escreve ou com os argumentos que se usa. Acho inclusive engraçado imaginar uma corretora de redação que só dá notas boas a quem a convence, e vai voltando pra alterar as notas daqueles que anteriormente a tinham convencido. Grande besteira. A gente não precisa convencer ninguém. Pra mim, quase basta só o jeito, pra que se escreva bem. Mas talvez se eu escrevesse de outro jeito, assim feito um Machado de Assis, tudo isso fizesse algum sentido, e eu conseguisse te convencer também. É só o jeito.

Rodolpho de Siqueira


54: Mermão!

Terça-feira, Março 10, 2009

Se ainda não disse aqui – e acho que não -, digo pela primeira vez que tenho um irmão de oito anos e muito do esperto. Uma vez ele, ouvindo “Malandragem”, olhou pra mim e começou o diálogo:
_Pô, que mentira...
_O que foi, João?
_A música aí... disse que era poeta, mas não sabia amar, que é uma coisa tão fácil. Mó mentira, né?

Eu sorri. Tentei explicar pra ele alguma coisa do que eu achava da letra, me achando o verdadeiro 'malandro' da situação. Só depois, sem perguntar, acabei por descobri que ele, já naquela época, gostava de uma menina do colégio. Amar pra ele, então, parecia fácil. Foi a primeira vez que ele me pregou uma peça.

Da última vez que viajei pra visitar minha família, claro que o vi de novo. Dessa vez, tentei aproveitar o pouco tempo para ensinar a ele – que andava meio gordinho – como era fácil andar de bicicleta. Começamos, com a presença de um amigo, e ele não conseguia. Eu tentava ensinar, dizia, mostrava, mas não dava jeito. O amigo dele, então, resolveu intervir:
_João, faz um esforço, cara. É só pedalar... Seu irmão já tá ficando meio nervoso.
Ele tinha razão: eu 'tava. 'Tava até João responder:
_Pô, se ele ficar nervoso por causa disso...

Foi a segunda vez que ele me pregou uma peça. Só faltou me dizer que era mó mentira alguém conseguir ensiná-lo a matemática, a jogar xadrez, a andar de bicicleta, mas ficar nervoso por uma besteira daquela. “Eu ando de bicicleta, mas sô um mané nervoso...”. A gente cresce e aprende a ser besta. Foi assim que eu aprendi.

Aquele dia era meu aniversário e tal. Foi, com certeza, um ótimo presente - e presente-surpresa. No dia seguinte ele acabou aprendendo, rápido como de costume, com um professor que já não se irritava como antes. E no dia de hoje eu acho que os 80 anos que ainda vô viver vão ser pouco pra tudo que eu ainda quero e preciso aprender.


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Há dois meses e alguma coisa é que fiz essa viagem e desde então tenho guardado, escrito na cabeça, o que escrevi agora. É um dos meus (maus) hábitos escrever e não pôr no papel; hábito muito ruim. Mas antes eu ainda conseguia, pelo menos, registrar aqui, no computador. O problema é que ultimamente não tenho feito nem isso – e quem lê isso aqui sabe. Então, agora que consegui, aproveitei o embalo e escrevi d'uma vez. Foi rápido, mas saiu. E eu sô coruja, sim.


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Extra! Extra! Aproveite a oportunidade e junte-se ao movimento dos semoportuguesdesempre. Se tu acha que essa reforma empobrece a língua e é meio inútil, porque a mudança da língua mostra a diversidade das culturas e é inevitável até de uma cidade pra outra, aqui é teu lugar! Aqui o quilombo ainda é d'idéia, com acento e tudo.
 

Rodolpho de Siqueira


53: Gosto 

Terça-feira, Novembro 04, 2008 

Uma vez eu achei que num tinha gostado d'um filme porque ele era, assim, meio panfletário. Dia desses eu descobri que não tinha gostado porque eu não concordava era com a idéia do panfleto. Talvez. Se fosse das minhas, eu ia achar é massa. Muito fácil. Difícil é conseguir ver o que é bonito, o que é inteligente, coisa e tal, quando o gosto avaliado é diferente do da gente. Difícil mermo, ou pelo menos eu acho. Tem um amigo que tem muita vontade política, em que eu acredito, mas com idéias completamente diferentes das minhas. Será que eu votaria nele? Num sei. Eu fico tentanto reconhecer no jeito diferente um mesmo objetivo, só que por um outro caminho. Ainda não consegui. Quem sabe o bom ou ruim não tá só no objetivo? Mas não consigo. Quando eu conseguir, vô pro céu. É meu sonho. Feito é meu sonho também chegar e elogiar o gosto d'um maluco que goste do sertanejo de que eu não goste – porque de alguns eu gosto! os violeiros são legais – e depois conseguir sair por aí, assoviando e orgulhoso, de consciência limpa. Já pensou? 'Cara, eu odeio esse negócio. Mas vai nessa, que teu gosto é do carai!' Vai doer... mas eu consigo. Pelo menos eu quero. Né possível que só tenha bom gosto quem concorda comigo. Né possível. Parece que, quando dizemos 'tu tem bom gosto', poderíamos também dizer 'parabéns por concordar comigo e, por isso, ser tão incrível!'. Não parece? Né possível.


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Eu sempre assinei com meu apelido aqui. Daí vô continuar a tradição e, agora, vô assinar como Rodolpho. É que eu descobri dia desses que Gringo virou meu nome. E que Rodolpho é o apelido que minha mãe me deu quando eu nasci. Que cara de Rodolpho eu tinha, afinal.

Rodolpho de Siqueira


52: Buracos

Sexta-feira, Outubro 03, 2008

Eu ando meio preocupado. Era pra eu 'tar pensando nas provas que tão vindo e tal, feito um bom estudante, mas não é disso que tô falando. Eu ando preocupado é com o que eu tenho aprendido pra fazer essas tais provas que andam me passando. Durante minha vida de estudante eu sempre ouvi falar de átomos, elétrons, coisa e tal. Mas há algo de errado quando você começa a ouvir falar que a falta de um elétron – ou seja, um buraco! - tem massa, carga e se move, e ainda acha isso normal. Aí tu começa a ver que tem alguma coisa estranha no ar. E que esse ar também podia ser o vácuo, dum jeito assim, bem natural. O negócio é tão preocupante que o leitor já deve 'tar assustado. Acontece que o assustador mermo ainda tá por vir, imagine só.

Imagine você estudar engenharia e descobrir que a máquina mais importante na tua profissão é uma que não existe. Na profissão não tem chave de fenda, régua e coisa nenhuma. Te enganaram quando explicaram o que era engenharia, mané. Agora imagina ter sido enganado assim, e ainda gostar. Preocupante. É um tal de pensar no abstrato, abrir a cabeça, que dá medo. E o pior é que não dá medo pelos motivos que o povo diz. Dizem que isso é coisa de maluco, coisa e tal, e mal sabem que não é com isso que eu tô preocupado. O maior susto dessa coisa toda é tu, depois de muito tempo, perceber que aprender esses negócios pode ter um sério efeito colateral.

Com o passar dos períodos eu fui descobrindo que abrir a cabeça é bom e pá, mas só um pouco, que é pra não acabar abrindo outras coisas. É uma certa agonia descobrir que o herói da computação e vários grandes matemáticos gostavam era de meninos. Deviam ter me contado antes. Com isso eu não queria ser engando. Não pode ser tanta coincidência, assim, não pode. Por isso eu comecei a pensar que os professores deveriam avisar assim, antes de ensinar alguma coisa: “Olha, isso aqui, por algum motivo, pode fazer você repensar suas opções sexuais. Agora vamos à demonstração.” Seria mais justo. Fecha o olho! Fecha o olho! e tava tudo certo. Eu tenho o direito, ora.

O povo vive dizendo que não, que não tem nada de errado em ser gay, e disso eu não discordo e tal. Na verdade, com o buraco dos outros eu sô um grandessíssimo liberal. Acontece que com o meu eu sô careta, ué. Qual é o problema? Ser liberal com o buraco dos outros é fácil, não dói e é um grande ato de tolerância, que tu devia experimentar. Disso eu não poderia discordar. Sô um grande fã dos ideais liberais e acho muito bom aprender com os grandes do Iluminismo. Não custa nada tentar. Eu só não vejo nada de errado em não querer iluminar o meu buraco. Prefiro que ele fique lá, na paz da escuridão, com seu grande amigo saco. De todos os mistérios e coisas que eu ainda tenho que entender e inventar, só não me incomodo que o meu buraco seja o único mistério que fique por desvendar. O mundo já tá cheio de outros buracos, negros e brancos, pra quem quiser morrer feliz da vida tentando explicar. 

Rodolpho de Siqueira


51: Cinqüenta

Segunda-feira, Agosto 25, 2008

Já faz mais d'uns três anos que eu joguei minha garrafa por aí e esperei que alguém por azar viesse a ler este blog. Comecei com alguma vergonha e frescura e não tinha a cara-de-pau que tenho hoje, que me faz escrever um post tão curto e besta, só pra dizer que esta é a quinquagésima vez que escrevo por aqui – pode contar! Não tinha mermo. Mas agora sô corajoso. Acabei vindo escrever, já que num me agüentava de vontade de terminar essa notícia, pra poder ir logo comemorar comendo a coxa de galinha desacompanhada que acabei de fazer. Bora nessa?
 
Rodolpho de Siqueira



50: Pai daqui, pai do céu, pai noel

Segunda-feira, Agosto 11, 2008

Visitei meu pai faz uns dias, a gente conversou umas coisas e ele acabou achando graça d'uns trecos que eu falei. Ontem foi dia dos pais e o que tá aí embaixo não é sobre ele, não é nada assim demais, mas foi do que ele achou graça. É pra ele, então, que de vez em quando passa por aqui também.

* * *

Dizem que não se discute religião, e eu mermo já num faço isso. Só escrevo. Daí tu faz tua parte, que é só ler aí bem quietinho, e fica tudo certo. Afinal religião não se discute. Dizem só que se acredita, e eu acredito nisso, porque também quero que acreditem quando digo que eu não acredito em muita coisa. Sempre digo isso. Isso só não quer dizer que na minha vida não tenha religião, não. Na verdade tem até bastante, porque dentre essas coisas que eu leio por aí e que num me valem nem mais um décimo na prova, a religião é uma delas. Eu gosto tanto que parece mentira. Quando eu digo que não tenho religião, é porque num acredito em tudo de nenhuma delas, mas principalmente porque não sô bom o suficiente pra me dizer de nenhuma delas. Não acredito em muita coisa e, do muito em que acredito, não consigo seguir nem um pouco ali, à risca. Por isso gosto de quem consegue. É até bonito ver quem – pelo menos foi o que me contaram – conseguiu pôr em prática princípios tão benéficos. Jesus por exemplo me parece um cara bem legal. Parece que eu não gosto de religião mas eu tenho certeza que gostaria de Jesus. Gostaria dele, de Buda e do povo todo. Do que eu num gosto é o fingimento, quando a doutrina parece ser esquecida. Aí num dá. Sem doutrina, como se dizer da religião? Tem muita gente aí que, de Bíblia de baixo do braço, faz coisa pior que esses meus textos. O povo diz que acredita, que é religioso, mas se tu fala em fidelidade, qualquer coisa parecida, nêgo te acha é otário. E olha que isso é só um mandamento. Imagina se fossem os dez! Acho que é por isso é que Jesus num volta. Porque, se ele voltar, matam ele de novo. Se tem uma coisa que eu acredito é que ele - ou o pai dele, sei lá - é onisciente. Pra ficar tanto tempo pra voltar, só sendo muito esperto e sabendo de tudo. Eu imagino um cara falando em simplicidade, amor e desapego às coisas materiais aqui no bairro onde eu moro ou na cidade em que nasci. Coitado! Mas, enfim, chega de fazê-lo sofrer mais uma vez. Afinal é com tudo quanto é religião que isso acontece, até na minha falta dela. O lado da doutrina, do ascetismo e prática moral mermo acho que não existe muito. O importante mermo é acreditar em alguma coisa. Ou quem sabe acreditar mermo é em alguém, que fica mais fácil conversar e pedir as coisas. Daí quando todo o mundo precisa de algo, acaba achando que tem alguém maior pra pedir o que precisa, inclusive eu. Acaba que Deus parece assim mais o Papai do Noel dos adultos. E nós, já muito crescidos, só não acreditamos mais nessa bobeira de escrever cartinha e se comportar bem o ano todo. Pra quê? Isso, sim, é que não se discute.
 
Rodolpho de Siqueira



49: Faze o que tu queres

Terça-feira, Agosto 05, 2008

Muito do pouco que eu sei me fez achar que, sempre que dá, vem logo alguém pra meter a mão na tua liberdade e ganhar um pouco mais pra si. É pior do que dinheiro. Essas coisas foram me fazendo meio que em luta constante pra ser o mais livre possível e ter agonia a cada tentativa que eu veja de se fazer o contrário. Seja me livrando das porcarias que comprei ou tentando abdicar de certos vícios, o negócio sempre foi tentar ser livre. Poder ser comunista, liberal ou reacionário e dizer isso pra todo o mundo sem ter de tomar choque na língua, não sei por quê, me faz sentir bem. E quando penso em algo mais simples vejo que caminhar na praia à noite com o cabelo engrenhado faz também. Resisitir às propagandas do que eu não preciso, enxegar parcialidade na tevê e negar o refrigerante naquelas perguntas convincentes também é algo assim. Qualquer coisa que se faça por escolha própria é a maior forma de liberdade pra mim. Volto lá e digo que, ei, agora eu quero aquele refrigerante. Quero ser enganado pelo horário eleitoral gratuito e quero fazê-lo tomando Coca-Cola! Eu posso. Liberdade mermo é não se privar de desejos. Né mermo? Ou não é? Vai ver liberdade não é usar calças largas e procurar coisas simples. Vai ver é fazer todo o contrário. Talvez em ser livre fazendo força tenha menos liberdade que em ser preso, de calças justas, e gostar disso. E quem sabe o viciado e o controlado, o enganado e o iludido sejam escravos por escolha, mais felizes que eu e você juntos.

“Se eu quero e você quer
Tomar banho de chapéu
Ou esperar Papai Noel
Ou discutir Carlos Gardel
Então vá
Faze o que tu queres
Pois é tudo
Da lei, da lei”

Rodolpho de Siqueira


48: Fêssora

Quinta-feira, Julho 03, 2008 

'Fêssora, acho que terminei.

Mas já?

É, eu gosto do tema. Foi tranquilo escrever. Né não, Rodrigo?

Mas foi muito rápido. Assim você acaba errando. Vá pensar mais um pouco, revisar o texto.

Precisa não, 'fêssora...

Hm, deixe-me ver.

É... dá aí a sugestão da senhora, que eu corrijo.

Hm... 'Tá vendo? Escrever tão rápido assim... só podia dar nisso. Seu texto está com alguns erros...

Ah, é, acho que esqueci do acento. Urubu tem acento?

Não é isso, menino. Isso é um texto dissertativo. A gente não deve usar 'eu acho', coisas desse tipo.

Ahn?

Não pode ser assim, tão pessoal.

Mas eu achei que era pra dizer o que eu achava. E olha que o Flamengo merecia pior...

Olha, o tema é futebol, que é pra estimular vocês, mas é um texto sério. Você tem que me convencer, passar credibilidade.

Ah...

Você deve escrever na terceira pessoa, que aí não soa pessoal, soa mais verdadeiro.

Como assim terceira pessoa?

Para quem está lendo, não pode parecer sua opinião, entendeu?

Mas aí eu faço o quê? Tipo, pergunto a alguém e escrevo? O Rodrigo num sabe de nada... Minha mãe nem entende de futebol... mas eu posso perguntar a ela assim mermo.

Não, menino... Só tem que passar credibilidade!

É mermo... nada a ver perguntar a minha mãe. Meu pai, sim! Meu pai lê bastante...Ele deve ser uma boa terceira pessoa. Ele deve ter esse negócio aí que a senhora 'tá falando. Acho que a senhora vai gostar.

Não é para perguntar a ninguém! Você tem que escrever suas idéias, mas parecendo que não foi bem você quem escreveu.

Ahh, sim. Isso é fácil, 'fessora. Era só dizer antes. Esse negócio de fingir é mole. Mentir pra ganhar cre.. credri.. credibilidade...Mas, ei! a senhora 'tá me falando a verdade, né?

Não! Digo... Não é isso! Não é mentir... Olha, deixa isso pra lá. Além de tudo, você tem que tomar mais cuidado. Seu texto está muito adjetivado.

Como assim... adjetivado? Tipo igual a senhora tinha dito, que adjetivo tinha a ver com qualidade? Até que enfim a senhora gostou de alguma coisa, hein...

Ai, meu Deus... Você está falando muito que fulano é isso, que é aquilo. Criticando com palavras fortes demais, quase xingando.

Mas professora... é o Flamengo!

Mesmo assim.

Ih, era melhor a senhora ter pedido pra falar de outra coisa então... E, olha só, a terceira pessoa sua m..., ô, minha mãe, meu pai, sei lá, já não 'tá achando graça nesse negócio de escrever, num tá entendendo mais é nada. E é segredo, mas pra senhora eu digo: a terceira pessoa sô eu!

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Escrevi isso aí pensando nos outdoors que vejo pelo Recife. Vários e vários cursos intensivos de Redação, que vão realizar bem a tarefa de criar trauma de escrita nos alunos e, ainda assim, encher o bolso de dinheiro.
 
Rodolpho de Siqueira


47: Priorize as prioridades

Segunda-feira, Maio 19, 2008

Qualquer dia desses por aí uma coisa qualquer me fez pensar em prioridades. 'Tava indo à parada perder o ônibus pra faculdade – uma dessas sérias prioridades-, quando o vi passar e não corri pra pegar. Fiquei sem jeito de repetir minhas corridas em público, porque já aprendi que evitar esse tipo de coisa, pra gente adulta, é uma prioridade maior que estudar na hora certa. Se você corre, te olham; e você só quer ser olhado mermo se o motivo for aquela roupa brilhante. Então você fica parado. Foi o que eu aprendi. Agora não faço o que fazia. Antes não era bem assim. Se eu 'tivesse no shopping e quisesse cagar, eu corria era na hora. Cagar em casa era mais importante. Aquilo, sim, era prioridade. Agora o esquema é outro. Se tiver alguém doente, precisando da gente, é capaz d'a gente chegar atrasado e num ajudar o coitado. Correr não pode. A gente cresce e aprende a ser besta. Foi assim que eu aprendi.

Hoje eu tô por aí, com outras coisas em mente que não cagar em paz na minha casa. O cara vai crescendo e vai disputando com os amigos vagas além do time de futebol de terra. Vai crescendo e vendo gente pra quem, aliás, jogar bola em futebol de terra ou qualquer coisa desse tipo já não é prioridade há muito tempo. Vai conhecendo incríveis pessoas pra quem dormir (!) não é laaá uma prioridade também. Vê que o princípio do dinheiro é às vezes maior que aqueles nossos. E conhece o corre-corre em que cada um escolhe suas prioridades às vezes sem comer, sem dormir e, é claro!, sem correr. Mas também escolhe as próprias e vê que sempre dá tempo de desenhar, tocar e escrever. E o assunto o cara escolhe no tempo que ganha do ônibus que costuma perder.
 

Rodolpho de Siqueira


46: Alguém ajuda?

Quinta-feira, Abril 10, 2008

Há algum tempo eu quis ajudar alguém e desisti. Não foi por maldade. Sei que falar isso logo agora, que 'tamos todos - tamos? - ajudando o Tibete a se libertar, pode fazer parecer que eu sou um ditador chinês; mas não é isso. Eu juro que acho que não é. É que, assim..., ajudar alguém pode ser complicado. Podem até dizer que ajudar é bom - e quando ajudo, às vezes, funciona; então desconfio que seja verdade. Acontece que nem sempre é assim - e aí vejo que é verdade mais ou menos, verdade de vez em quando, igualzin' a todas as verdades. Foi por isso - e não por ser um ditador chinês - que dia desses deixei de dar minha sugestão pra tentar ajudar um amigo meu. Alguns dias antes d'ele apresentar sua tese, eu li alguns de seus textos e não dei minha opinião sincera. Achei que, em vez de ajudar, poderia deixá-lo mais inseguro pra apresentação e tudo o mais. Fiquei quieto. Passados alguns dias lá 'tava eu assistindo a apresentação, torcendo e ouvindo alguém da banca criticar a estruturação do texto do jeito que eu teria feito. Fiquei puto. Perdi uma ótima oportunidade de não ficar calado. Não ajudei e poderia ter ajudado. Fa-z-o-quê? Isso, afinal, é escroto demais. Num dá pra saber no que vai dar. É como Fátima, que, querendo ajudar, sempre acerta e põe tudo aqui em casa num lugar perfeito. Perfeito pr'eu nunca mais achar. Vô fa-z-o-quê, cara? É complicado pra carai.

Quando a gente tá realmente convencido de que pode ajudar, aí a coisa ainda piora. Sabe aquela estória de que todo brasileiro é médico e técnico de futebol? A gente acha que sabe o que é bom pra doença, o que é bom pro time... Uma maravilha. Ninguém sabe o que é bom pra própria vida, mas pra saber de outras coisas é num instante. Alguns de nós têm profissão de palpiteiro e outros só são palpiteiros de profissão - os vizinhos que o digam. Se é pra dizer o que alguém não pode jogar, ler, ou até comer(!), sempre tem alguém inteligente. Ou, em outros casos, há também um juiz esperto que sabe o que faz - e não pára por aí. Formamos muitos, somos todos palpiteiros, somando-se os individuais. E, como somos todos palpiteiros e todos são a maioria, 'tá nas nossas mãos o poder de ajudar a impor nossos conhecimentos - de medicina, de futebol, de religião - naquela velha minoria - que ainda reclama, ingrata! Só queremos ajudar. São decisões democráticas; eles têm de aceitar. Afinal, nós sabemos o que é bom pra eles - a maioria sempre soube! sempre tomou as maiores decisões. Foi a maioria que gritou pela crucificação de Jesus e é também a maioria que, hoje, tenta - tenta? - seguir seus passos como a verdadeira das religiões. Sábias decisões. Teve também aquela maioria lá, não lembra?, que apoiou as medidas de genocídio d'um tal bigodudo. E ainda aquela outra que, pra ajudar os iraquianos, elegeu um conhecido orelhudo. Entrar em suas casas e ensinar a criar seus filhos, todas ótimas ajudas vindas de quem sabe o que é melhor pra todos sem nem perguntar. Porque, ainda que não tenhamos nada com o assunto, impor nossa ajuda parece ser o caminho e talvez nunca consigamos parar. Seja aqui, ali, ou pra lá de Bagdá.

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Se a maioria achasse bom se apossar de tudo que é da minoria, seria válido? Se ela proibisse alguém de ter tal religião, como já foi feito, seria bom?
Escolher pela maioria é realmente melhor que somente por alguns. Mas será que a escolha feita, em alguns temas, não pode ser de deixar que cada um escolha por si? Será que num é possível deixar alguém usar burca, guardar o detergente do lado direito e a roupa pendurada no chão, viver na matrix, usar coleira ou ser judeu, se assim ele quiser, ainda que não se goste? Acho que é, sim. Mas a gente quer ajudar. Porque a gente sabe o que é bom pro bem comum.

Rodolpho de Siqueira


45: Verdade x Mentira 

Domingo, Janeiro 13, 2008 


O que dizem que acontece por aí, que a gente já pega pela metade, é sempre um mistério. Dizer o que é verdade, o que é parcial, coisa e tal, sempre foi meio complicado. Qualquer coisa que se conte já não é mais como foi. Quem conta aumenta um ponto, que ainda vai se estender depois. A verdade só depende de quem conta, e como ele conta depende da vontade. Não ‘tá só na Veja nem só na Globo a mentira com a tal parcialidade. Como o povo às vezes diz, só se acredita em julgamento imparcial no carrinho de bebê e na lá corte do juiz. O que pra nós é verdade é só aquilo que a gente achou bonito. A gente acaba só escolhendo a fonte que acha melhor e isso, na verdade, faz pouca diferença; pouco importa. No final, independente de qual, ainda há a chance de alguém descobrir e vir dizer que nossa verdade, na verdade de verdade mermo, era mentira. Que plutão não era bem um planeta e que a luz também se entorta. E é por isso que, pra não errar, às vezes o melhor é escolher aquelas fontes confiáveis, que falam a verdade quando dizem que mentem. Que nos dizem que dá pra ir ao centro da terra, viver uns 400 anos e ver gato falar - mas mentindo assumidamente. Tudo inventado. Bem melhores. Outra coisa também pode ser boa de se ler, mas alguém é que viu antes e já vem tudo recontado - sempre se questiona, não é estória e não dá nem pra ajudar a inventar. Conto, causo, romance, isso é que é mentira de verdade! O resto é tudo uma grande História, mentira de mentira, que a gente às vezes realmente pode deixar pra lá.

O Lula Sabia? Ele vai tentar se eleger de novo? Quem é o bandido? O cara morto pelo promotor era mermo assaltante? Aqueles ataques fizeram parte de uma conspiração? O aquecimento global não é causado por nós? Sei lá, sei não. Vô ler meus anos de solidão.


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É verdade, sim, que a Veja, Globo e esses meios maiores são parciais. Mas também é verdade que todos o são. É só olhar os sites daqueles que se dizem sem máscaras e daqueles independentes, que aí se pode ver, apesar das coisas boas, muita parcialidade. Não tem outro jeito. É escolher o teu.

E, ah, “Verdade x Mentira” é também uma música da nossa banda, a Overdose Homeopática.

P.S - Eu ia deixar pra comentar sobre ele em outra hora, mas vi que quanto antes melhor. Então tá aí: Ron Paul. Um candidato que pra mim parece decente e de quem normalmente não se vê falar nada.

A eleição não é daqui, mas o resultado, cês sabem, pode fazer a diferença pra gente também.
 
Rodolpho de Siqueira


44: Orgulho Brasilis

Domingo, Novembro 25, 2007

Faz um mês mais ou menos que, andando pela praia com a namorada, vi uns amigos jogando futebol americano d’um jeito que, se tivessem me dito, eu não acreditava. Era uma mega-produção bem ali, na areia: tinha apoio da prefeitura, time vindo de longe, gente assistindo e tudo o mais. Tinha líder-de-torcida, que se chamava cheerleader. Tinha uma bola, que não era a redonda. E tinha o orgulho do time, estampado ‘Mariners Prider’, que me fez pensar sobre o nosso, ou se ele existe.

Não me fez pensar que não se deve jogar futebol americano, não. Nem que não devemos jogar basquete, ou que eu devo largar meu skate. Não é isso. Esporte é esporte e é bom independentemente de onde venha. Só me fez pensar que gostamos tanto do que é de fora, que às vezes o que é daqui fica escondido.

Eu não vejo problema em conhecer e gostar das coisas por aí. De jeito algum. Se enriquecer de tudo que é jeito é válido. Não tem menor problema em assistir aos filmes de Hollywood, ou seja lá de onde for. Agora... será que não tem problema em saber, torcer e acompanhar a estatueta de ouro lá e deixar de lado os festivais brasileiros? Talvez não seja ruim que grande parte do nosso dinheiro dado aos cinemas vá pra filmes de fora, enquanto LavourArcaica e outros tantos passam despercebidos?

Não há problema algum em admirar e ter como ídolos gente deste e daquele país. Tem gente que tem talento e merece atingir a todos mermo. Mas como é que a obra desse povo atravessa os continentes e chega à gente aqui com tanta força, enquanto o que vem daqui se sufoca pra sair do bairro? Como é que todo o mundo conhece Charles Chaplin e poucos viram Mazzaropi?

Eu realmente acredito que a mescla de culturas realmente pode, sim, enriquecer as coisas. O que eu ‘tô falando aqui é que não dá pra misturar a dos outros com a daqueles outros outros – e deixar a nossa de lado. É isso que não pode.

Acho desnecessário, por exemplo, ficar usando uns estrangeirismos pra fazer as coisas parecer mais interessantes, quando há correspondentes bem normais no português – ao contrário de outros casos. Não agüento mais ver lojas em sale com tantos porcento off e workshops de tudo que é tipo. Hoje eu vejo, inclusive, a infeliz idéia que eu e minha antiga banda tínhamos de cantar em inglês, achando que poderíamos ser ouvidos por mais gente – enquanto a gente mal saiu do bairro - e agora gosto muito mermo de poder escrever no velho português.

Fico pensando que a gente deve ter orgulho daqui justamente pra fazer coisas melhorarem, e não ter orgulho só de certas coisas que já são boas. De vez em quando me pego imaginando se o Brasil não tivesse as boas coisas naturais que tem, ou se não tivesse o futebol que temos. Aí, sim, estaríamos fudidos. Mas ainda temos
o sol, muita água, bom clima, o futebol... Então ‘tá tudo bem.

A Copa, por exemplo, ‘tá vindo por aí e já fico imaginando o time ganhando e o povo todo cantando: sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor. E nas ruas, do lado de fora do estádio, o orgulho do brasileiro se mostrando na forma de assalto e enganação aos gringos otários – que adoram se enganar por aqui.

Só espero que, entre roubos, desvios e super-faturamentos, alguém consiga enfiar entre as arenas a construção d’um orgulho próprio. Quem sabe assim os turistas enganem de verdade com nosso país: venham procurando mulher pelada e só achem o bom futebol e uma melhor imagem. 


Rodolpho de Siqueira