terça-feira, 8 de julho de 2014



37: Ouvi falar

Segunda-feira, Julho 02, 2007

"Dessas muitas coisas que já escrevi aqui, tu aí, se for semi-esperto, não deve ter visto muita razão em todas. Deve ter ao menos desconfiado da minha credibilidade, como acontece toda vez que a gente ouve alguém falar de algo meio mirabolante. Agora... se eu ‘tivesse falando essas mermas coisas na tevê, com um terno bem engomado, cabelo bem penteado e sorriso bem amarelado... hein, hein? Talvez a coisa mudasse de figura.

Vindo da caixa de lusinhas, tudo ganha um pode maior de persuasão. Numa conversa, dizer que viu tal coisa no Fantástico eleva o nível do argumento – ainda que ele seja fraco e nunca tenha visto a cara da Glória Maria. Funciona tão bem quanto aquelas aspas, seguidas de um nome famoso, que dão um toque mágico a qualquer frase de significado simples e talvez falso.

Pra muita gente, o que vem da televisão não é a pura verdade que eles escolhem aceitar. É só a única verdade que eles conhecem. Mas, pra muitas outras gentes, o que é televisionado não é a única fonte, não. Esses, muito espertos, lêem também os e-mails oniscientes, escritos por amigos do tatu do vizinho que trabalha na CIA. E nesses, sim, pode-se confiar.

Dia desses mermo descobriram a faceta sanguinária de Lênin - e, ainda bem, resolveram me contar! Finalmente, depois de tantos anos, o sujeito que sabia da verdade resolveu escrever um e-mail. Ele sentou lá e, antes de dar o suspiro final, declarando num falar soprado seu único herdeiro, resolveu compartilhar com o mundo a verdade que só ele sabia: O Decálogo de Lênin. Daí, como ele ‘tava com pressa pra morrer, escreveu de qualquer jeito, nem pôs fonte, nem nada. Então o tatu dele, muito grato, deve ter dado uma carinha bonita à mensagem, vestida de PowerPoint, e agora todo o mundo passa pra frente o troço, atribuindo às mais variadas fontes – inclusive à minha querida Wikipedia, coitada -, menos ao tal do tatu.

Uma outra vez, uma nuvem cósmica ia sugar a terra e pouquíssimas pessoas sabiam. Numa outra, a Amazônia foi estadunidense –mas depois enjoou e voltou pra nós sã e salva, ou mais ou menos. E em uma última – que eu me lembre dentre as tantas fantas assassinas e sua turma da pesada - um professor que não existia escreveu coisas a favor de Lula.

Como pode tudo isso? Sei não. Mas, nesse mundo em que tatu conta estórias, tudo pode; o que num pode é duvidar. Quem duvidaria, afinal? Ninguém... Ninguém ousaria duvidar. Porque ‘tá tudo escrito num livro lá que ninguém leu. Escrito, também, pelo próprio ninguém.




obs. - link pra conversa em que o suposto decálogo é usado e sua fonte é atribuída à Wikipedia, aqui.

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Tem dia que todo o mundo deve acordar bem disposto. Assim, radiante mermo. Porque, às vezes, tenho certeza que todo sono existente se concentra na areia que arranha minhas pálpebras pela manhã. Só pode ser isso.
Conto com teu agradecimento."
 
Rodolpho de Siqueira

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