terça-feira, 8 de julho de 2014




61: Mais um (con)texto 

Terça-feira, Outubro 05, 2010 

Essa semana vai ter de novo jogo da selecção, o segundo com novo técnico Mano Menezes e tal. Vô aproveitar pra falar agora o que eu ia falar da ooutra vez, a primeira que a seleção jogou - mas não tem naada a ver com futebol. Naquela vez, nos dias em torno do jogo, o Mano fez um comentário sobre comprometimento que deixou todo o mundo viajando na tevê. Ele falou que "o porco dá parte de si pro omelete, e a galinha só dá o ovo". Daí ficou todo o mundo viajando sobre o que aquilo queria dizer, achando graça e tudo o mais. Fizeram entrevista com o povo na rua e a maioria, ao ser perguntada sobre qual dos dois participantes do omelete era mais importante ou algo assim, respondia que era o porco - afinal o porco dava parte do corpo! Beleza então. Só que que esse pessoal da tevê e esses comentaristas esqueceram de comentar que o Mano Menezes disse isso numa entrevista em que ele comentava sobre a importância do tal comprometimento - aquela palavra que o Dunga usava tanto pra justificar suas asneiras. Ele dizia que, na visão dele, comprometimento não era algo tão diferente do que as pessoas fazem no seu dia-a-dia. Dizia que "Comprometimento é fazer bem a sua parte.", e então contou o tal papo sobre o omelete com bacon. Depois disso, eu não sei mais o que ele disse - todos os vídeos terminam por aí -, mas me parece claro que ele fosse continuar a conversa dizendo algo como "apesar de a galinha ter dado só o ovo, e o porco ter dado o corpo, cada um fez bem sua parte; isso é que é importante". A não ser que alguém goste de omelete com ovo de porco e coxa de galinha, me parece fazer sentido! Eu não sei se ele chegou a dizer isso mermo, ou se era essa a intenção. E nem tô aqui pra ficar falando o quão ruins e fãs do óbvio e da moda e de tudo o mais de ruim eu considero os comentaristas esportivos no geral. Mas o fato é que ao comentar isso na tevê esqueceram completamente do que ele disse antes, e esqueceram que fora de contexto nada faz sentido ou tem significado - na verdade pode até ter, mas completamente alterado.

Pra mim o contexto é uma das coisas mais importantes na hora de interpretar alguma coisa. A interconexão das coisas é o que me faz melhor entendê-las e pra mim é o que dá sentido a elas. Se tu vai a algum país qualquer fictício a que tu nunca foi nem conhece e, ao te vender uma caneta, uma pessoa diz que custa exatamente treze tcheroleros, tu não vai ter a mínima remota ideia de se aquilo é caro ou não. Mas daí se, junto com isso, te dizem que um carro custa catorze tcheroleros, então tu vai concluir que a caneta era muito cara - ou então vai comprar um bocado de carros! O importante é que a essa altura tu vai ter entendido melhor qual é o significado daquilo, e é sempre assim que as coisas acontecem. O aprendizado de muitas coisas se dá exatamente dessa forma. Aprender vocabulário até é meio assim: ninguém lê no dicionário o significado de uma bola; tu tá ali pequenininho e, de repente, tua mãe te dá o negócio mais divertido da Via-Láctea, e quando tá perto dele fala "bola" daqui, "bola" de lá, "bola", "bola"… aprendeu.

Hoje eu gosto muito de História e o papel dela, pra mim, é esse também: pôr as coisas em contexto. Antes eu aprendia as paradas no colégio e era um tal de decorar data que enchia o saco. Daí a escola se modernizou, acabou com aquilo, e eu comecei a aprender um monte de coisa, lembrar de nomes, coisas que tinham acontecido, mas sem nunca estabelecer direito relações entre o que veio antes, o que veio depois e coisa e tal. Foi assim que eu percebi que eles não tinham se modernizado tanto assim. Então eu voltei a lembrar as datas, comecei a fazer conexões, e fiquei feliz pra sempre - tu devia tentar; funciona! pelo menos pra mim.

É só com a História do Brasil, por exemplo, que eu acho que a gente pode vir a entender esse país direito. Com ela dá pra saber de onde a gente veio, por que caminho passou até chegar aqui e tudo o mais, tudo em contexto. Com o o pouco que eu sei dela já ajuda a não esquecer o que o Lula falou antes de vê-lo falar sobre futebol, omelete ou qualquer coisa. Já ajuda a lembrar que o Brasil já teve um monte de ministro antes considerado importante e famoso, mas não houve nenhum que me dissessem ser da Casa Civil e diretamente responsável por algo grandioso. Já ajuda a lembrar o que os últimos ministros da Casa Civil fizeram, e o que a Dilma foi antes de chegar lá. Já não dá pra vir querer me enganar.

É só com contexto que eu consigo entender melhor as coisas; não tem jeito. E é também só com contexto que eu consigo entender a mim mermo, o meu próprio significado - embora eu saiba que isso soa dramático. Eu olho os números do país e vejo que somos aí por volta dos 190 milhões de pessoas, e que 1 comparado a 190.000.0000, é pouco, se colocado assim em contexto. Mas vejo que, em 2008, mais da metade dos eleitores não concluiu o ensino fundamental. Vejo que no meu país a população acima de 25 anos com ensino superior completo é em torno dos 10%, um baixo percentual, e mesmo assim tô com 23 e prestes a me formar e tal. Só assim entendo direito o meu papel nessa coisa toda de direitos e deveres, omeletes e comprometimentos. Vejo que faço parte da parcela mais privilegiada da população e que, se não fizermos nossa parte direito, quem a fará? Vejo que eu fui um dos que mais comeu do bolo todo, e que pra esse omelete sair bem feito é uma parte bastante grande aquela que eu devo dar. Não tem jeito. E eu tô cansando de promessas e juramentos, mas juro que vô tentar.


Rodolpho de Siqueira

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