terça-feira, 8 de julho de 2014



63: exagero

Domingo, Julho 24, 2011 

eu posso dizer que namorei muito na minha vida e tive relacionamentos sérios, mas descobri que conheço um pouco do outro lado. descobri que tenho com o sushi uma relação de sexo casual e exagerado: quando fico muito tempo sem comer, quero loucamente; quando como, é até cansar; quando acabo, é aquela coisa: cadê o botão pra ele sumir? é o garçom! "quer mais sushi?" não quero não! pode levar esse daqui; leva ele pra casa, que eu vô pra minha dormir! fico parecendo um vadio da culinária oriental. se uma peça de sushi pudesse, me dava um tapa na cara e gritava, contanto pras outras, pra elas nunca mais me deixarem comê-las.

esse é só mais um dos tantos exageros que cometo, e que imagino serem comuns. alterno entre tempos em que não estudo nada, nada, pra depois, quando as provas chegam, ficar só lendo feito maluco - e é claro que a estória se repete: quando elas vão embora, é claro que falar em estudar é piada. imagina oferecer emprego pra um escravo recém-alforriado: "tu tá livre, mas tenho aqui um trabalhinho pra ti!" e o escravo: "haha! muito boa, seu zé!"

meu trabalho começa oficialmente no próximo vez, e, agora que tá tudo certo, tranco o mestrado pra ficar numa extrema maciota pelos últimos dias. depois, tô um tanto ferrado pra cacete.

durante a semana, tento levar uma vida semi-budista. no fim de semana, mudo de religião e fico semi-hedonista. durante a semana, bebo água. no fim de semana, bebo o óbvio. durante a semana, durmo pouco. no fim de semana, durmo por todos vocês.

às vezes penso se essa alternância não tá errada e se eu não deveria levar um caminho mais equilibrado, mais constante. até agora, não consegui. vai ver essa alternância exagerada significa vida, não sei. talvez não seja; só sei que uma constância total, é claro, com certeza significa morte - tanto pra um lado, quanto pro outro: se tu não faz nada o tempo todo, não vive; se tá sempre na porralouquice, acaba morrendo.

por outro lado, acho que quem vive estritamente o caminho do meio desde moleque deve ficar meio velho meio cedo. acho que dá pra eu deixar pra viver o caminho do meio quando eu já tiver mais pra lá do meio do caminho - tipo lá pelos 50. até lá, exagero pra um lado, pro outro, e na média fico no meio.

não tendo nenhum absurdo talento e só exagerando alternadamente, passo fácil dos 27, e com certeza chego lá. meu exagero alternado é moderado se comparado aos exageros constantes que a gente conhece; não tem pra que me preocupar.

então por mim mermo eu fico tranquilo. só é uma pena, mais uma vez, ver gente talentosa assim morrer; isso eu tenho que te falar.

Rodolpho de Siqueira

Nenhum comentário: