terça-feira, 8 de julho de 2014



35: O meu, o teu, o de ninguém 

Sexta-feira, Março 09, 2007 

Ultimamente nêgo tem falado muito do aquecimento global e tudo o mais. Pela segunda vez, a moda tem servido de alguma coisa. E a primeira eu num sei qual foi. Mas eu sei menos da metade das coisas, e um é metade de dois, e então... tu entendeu. Deve ter tido uma primeira. Só que essa tem sido útil.

Percebemos que ¿tamos bastante fudidos. Isso é útil. E já era a hora, principalmente se dessa vez for de verdade. Porque tem muita gente chorando a morte do mundo dos olhos pra fora, falando muito e fazendo nada. Lembra do tratado de Kyoto? Aquele que os Eua não assinaram? A Espanha assinou. Mas essa aumentou as emissões mais que os norte-americanos. Bacana. Assim adianta muito.

Por isso é que eu fico, sim, preocupado, mas acho que cada um faz o que sabe que deve fazer de verdade, sem falatório. Porque, mais que a verdade inconveniente, me preocupam as relações d¿agente com a gente mermo. De um país com outro. De um maluco muçulmano com um lunático estadunidense. Me preocupa é que a gente tenha só uns 100 anos pra viver razoavelmente, por causa do aquecimento, e que acabe morrendo em dezessete com uma guerra qualquer e fajuta.

Essas relações, sim, são bizarras. É integração daqui, acordo de união pra lá, tudo em prol da economia ¿ mas só dela. É uma grande aldeia global e unida durante o dia do dinheiro e um pátio de Babel durante o escuro das diferenças. A gente se une pra lucrar e disputa pra viver. Por um lado é tudo tão interligado... É um tempo em que o Brasil comercializa com todo o mundo - vende cacau a preço de banana-prata e compra de volta chocolate com preço de ouro; mas vende. São tempos em que a informação voa fácil e eu, daqui do meu canto, conheço o Montmartre vendo filme, pra logo depois saber das belezas do rio Guaíba lendo um blog taxista e aprender francês vendo o belga Tintin - tudo isso alguns anos depois de jogar futebol com tailandês em terras texanas. São tempos em que a música se espalha, as influências vêm de longe e bandas inglesas falam português ¿ ou tu nunca ouviu Moptop? É uma época que me permite ser petropolitano de nascença, pernambucano por opção e cidadão do mundo por objetivo.

Mas também é uma época de guerra santa, de paz satânica, em que ainda há inimigos se matando sem deixar de lado a falsa parceria. Em que ainda explode o arabeuropeu, vestido com a camisa da Nike, feita pelas crianças do oriente. Em que a gente ainda acha bonito ver filme denegrindo só a imagem dos outros. São dias de intolerância, e é isso que me preocupa. Nesse caso, assim como no aquecimento global, o que preocupa somos nós. Só que isso é mais urgente. ¿Tá cheio de louco querendo cavar uma grande cova redonda, com a eficiência de muitos megatons, pra enterrar nosso mundo.

Enquanto isso, num reino não tão farfaraway, ele sofre de um mal até agora sem cura. Pede socorro tossindo furacões e cuspindo ondas gigantes. Deita sobre Atlas em uma situação de paciente terminal, cujo destino se divide entre a esperança, com atuação pela cura, e a desistência, com aceitação da morte. Uma bifurcação em que o caminho a ser escolhido não depende dele, nem depende daquele gato de Cheshire*. Depende logo de nós, os muitos ativistas conscientes militando pelo fim de seu sofrimento com essa rápida eutanásia. Depende logo de nós, meu Zeus!

* * * * * *
Pausa na rabugice!

O povo da faculdade é meio, er, peculiar. Tem um cara lá que é conhecido por não ter queixo. Calma: é que, assim..., o queixo dele não é láá muito protuberante. Daí assim ele ficou conhecido. E eu fico até meio mal de me referir a ele desse jeito, mas num fico pior porque ele também deve falar de mim como o molequedonarizgrande. Então, ¿tá tudo certo: ele continua sendo o sem-queixo. Mas o negócio é que pouca gente deve desconfiar que isso é uma qualidade. Talvez nem ele saiba que o defeito virou efeito e ele tem tudo pra ser o próximo estágio na evolução ¿ quem sabe até um Homo superior. Ele, com certeza, não sofre do problema que ataca metade de todos: sofrer corte aqui na queixada. Ao contrário de tu, do teu irmão e teu amigo que, eu sei, já cortaram o queixo, ele não terá esse problema. E acho que a gente devia atentar pra isso. O queixo só ta fazendo merda. ¿Tá na hora de mexer no time.

Mas, enquanto não vem o show do intervalo, as pessoas têm seus queixos rasgados e costurados. Eu, também. E jogando bola dia desses foi que surgiu meu próprio grand canyon. Depois do estrago, na emergência do hospital, a mulher pegou meus dados, tal, e disse, com toda tranqüilidade, que eu poderia esperar ali, na cadeira. Foi quando eu percebi que a palavra emergência era de brincadeirinha. Daí, esperei mais algum tempo e algumas vezes até que tive os pontos feitos. Saí pela rua, com esparadrapo colado no rosto, no maior estilo do adereço descolado. Percebi que as pessoas me olhavam e se perguntavam o porquê daquilo. ¿Será que ele brigou? Ou será que ele caiu do décimo andar? Quem sabe até foi atropelado por um gnu? Eu sabia que gnus não era bons...¿ E olharam até eu chegar em casa e começar a escrever esse treco besta, que já vai terminar. Mas não sem antes dizer que esperto é o colega sem-queixo!
 

Rodolpho de Siqueira

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