terça-feira, 8 de julho de 2014



60: Ubuntu 

Quarta-feira, Junho 23, 2010 

Uma amiga minha dia desses me contou a incrível história d'uma garota que gostava de tênis. Tê! Nis. E, nããão, amigos telespectadores, não é ténis de Wimbledon, desses que se joga com raquete. É um ténis, só um ténis, desses de botar no pé.

Ela sentia muita atracão por um tipo especial de tênis. E caso um cara viesse falar com ela usando outro tipo, ela mal dava atenção. Que coisa, não!? Eu achei isso um tanto quanto muito escroto pra cacete, assim de início, mas depois fui pensando e vi que era só um pouco. Fui pensando e vi que também me chama a atenção, claro, a roupa que uma mulher veste - mas também vi que sô incrivelmente mais tolerante, já que minha preferência é cérebro, rosto, bunda, peito, cérebro, barriga, bunda, pernas, bunda, cérebro, costas, cérebro, bunda, pééé… e daí sim! saia, calça, sandália, e eu juro que uma hora eu ia chegar no ténis. Eu ia chegar no tênis!

Supondo então que eu tenha chegado no tênis, não posso recriminá-la! Não tô nem sendo sarcástico, não. Só um pouco, talvez, não sei, quem sabe, mas o ponto é que ela pode 'tar certa. Ou, mais na verdade ainda, ponto mermo é que não tem certo nessa incrível história da menina que gosta de tênis e do ridículo conto do cara que gosta de cérebro com bunda. Não tem.

Eu fui mudando tanto na vida, já fiz tanta coisa diferente e já achei tanta coisa diferente, que hoje pra mim fica bem difícil achar algum comportamento errado intrinsecamente - bem, a não ser que aquilo faça mal a alguém. É claro que tenho minhas preferências - cér… bunda … tênis -, mas hoje me parece que, se eu recrimino muito a alguém, é quase como se 'tivesse recriminando a mim próprio em outra época.

É claro que tenho minhas preferências, mas elas próprias são até meio injustas. Se eu gosto de alguém com mais coisa na cabeça, e alguém que fala numseiquantas línguas e que gosta de tais bandas, se veste com tais roupas e tem tal/nenhuma religião me parece interessante, tudo bem, claro; mas não tá claro também que essa pessoa provavelmente teve uma educação parecidíssima com a minha? Se eu só gosto disso e recrimino ou até ridicularizo o resto, quem não nasceu no meu meio, quem tem mais ou menos dinheiro que eu ou quem tem uma cultura de outro país 'tá fadado ao meu desprezo. Cada vez menos quero isso.

Essa copa, na África do Sul tão misturada, e cheia de gente de todos os cantos, me fez também lembrar dessas coisas. Lá eles ainda têm suas preferências -às vezes discriminatórias ainda-, e na maioria dos casos negro não casa com branco e, espante-se, branco não casa com negro. Mas o importante é que eles, ou pelo menos as leis deles, já não permitem a humilhação daquilo que é diferente.

Cada vez mais quero viajar, conhecer e ver o que é diferente, pra quem sabe, de repente, recriminar cada vez menos a menina do tênis. E, como os africanos, mermo errando muito ainda, cada vez mais me convenço de que "sou o que sou só por causa do que todos nós somos.". E que é só por causa disso, e que não tem outro ponto.

Rodolpho de Siqueira

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""Ubuntu" is an idea present in African spirituality that says "I am because we are" - or we are all connected, we cannot be ourselves without community, health and faith are always lived out among others, an individual’s well being is caught up in the well being of others."

http://en.wikipedia.org/wiki/I_Am_Because_We_Are

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