terça-feira, 8 de julho de 2014




50: Pai daqui, pai do céu, pai noel

Segunda-feira, Agosto 11, 2008

Visitei meu pai faz uns dias, a gente conversou umas coisas e ele acabou achando graça d'uns trecos que eu falei. Ontem foi dia dos pais e o que tá aí embaixo não é sobre ele, não é nada assim demais, mas foi do que ele achou graça. É pra ele, então, que de vez em quando passa por aqui também.

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Dizem que não se discute religião, e eu mermo já num faço isso. Só escrevo. Daí tu faz tua parte, que é só ler aí bem quietinho, e fica tudo certo. Afinal religião não se discute. Dizem só que se acredita, e eu acredito nisso, porque também quero que acreditem quando digo que eu não acredito em muita coisa. Sempre digo isso. Isso só não quer dizer que na minha vida não tenha religião, não. Na verdade tem até bastante, porque dentre essas coisas que eu leio por aí e que num me valem nem mais um décimo na prova, a religião é uma delas. Eu gosto tanto que parece mentira. Quando eu digo que não tenho religião, é porque num acredito em tudo de nenhuma delas, mas principalmente porque não sô bom o suficiente pra me dizer de nenhuma delas. Não acredito em muita coisa e, do muito em que acredito, não consigo seguir nem um pouco ali, à risca. Por isso gosto de quem consegue. É até bonito ver quem – pelo menos foi o que me contaram – conseguiu pôr em prática princípios tão benéficos. Jesus por exemplo me parece um cara bem legal. Parece que eu não gosto de religião mas eu tenho certeza que gostaria de Jesus. Gostaria dele, de Buda e do povo todo. Do que eu num gosto é o fingimento, quando a doutrina parece ser esquecida. Aí num dá. Sem doutrina, como se dizer da religião? Tem muita gente aí que, de Bíblia de baixo do braço, faz coisa pior que esses meus textos. O povo diz que acredita, que é religioso, mas se tu fala em fidelidade, qualquer coisa parecida, nêgo te acha é otário. E olha que isso é só um mandamento. Imagina se fossem os dez! Acho que é por isso é que Jesus num volta. Porque, se ele voltar, matam ele de novo. Se tem uma coisa que eu acredito é que ele - ou o pai dele, sei lá - é onisciente. Pra ficar tanto tempo pra voltar, só sendo muito esperto e sabendo de tudo. Eu imagino um cara falando em simplicidade, amor e desapego às coisas materiais aqui no bairro onde eu moro ou na cidade em que nasci. Coitado! Mas, enfim, chega de fazê-lo sofrer mais uma vez. Afinal é com tudo quanto é religião que isso acontece, até na minha falta dela. O lado da doutrina, do ascetismo e prática moral mermo acho que não existe muito. O importante mermo é acreditar em alguma coisa. Ou quem sabe acreditar mermo é em alguém, que fica mais fácil conversar e pedir as coisas. Daí quando todo o mundo precisa de algo, acaba achando que tem alguém maior pra pedir o que precisa, inclusive eu. Acaba que Deus parece assim mais o Papai do Noel dos adultos. E nós, já muito crescidos, só não acreditamos mais nessa bobeira de escrever cartinha e se comportar bem o ano todo. Pra quê? Isso, sim, é que não se discute.
 
Rodolpho de Siqueira

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