Domingo, Novembro 25, 2007
Faz um mês mais ou menos que, andando pela praia com a namorada, vi uns amigos jogando futebol americano d’um jeito que, se tivessem me dito, eu não acreditava. Era uma mega-produção bem ali, na areia: tinha apoio da prefeitura, time vindo de longe, gente assistindo e tudo o mais. Tinha líder-de-torcida, que se chamava cheerleader. Tinha uma bola, que não era a redonda. E tinha o orgulho do time, estampado ‘Mariners Prider’, que me fez pensar sobre o nosso, ou se ele existe.
Não me fez pensar que não se deve jogar futebol americano, não. Nem que não devemos jogar basquete, ou que eu devo largar meu skate. Não é isso. Esporte é esporte e é bom independentemente de onde venha. Só me fez pensar que gostamos tanto do que é de fora, que às vezes o que é daqui fica escondido.
Eu não vejo problema em conhecer e gostar das coisas por aí. De jeito algum. Se enriquecer de tudo que é jeito é válido. Não tem menor problema em assistir aos filmes de Hollywood, ou seja lá de onde for. Agora... será que não tem problema em saber, torcer e acompanhar a estatueta de ouro lá e deixar de lado os festivais brasileiros? Talvez não seja ruim que grande parte do nosso dinheiro dado aos cinemas vá pra filmes de fora, enquanto LavourArcaica e outros tantos passam despercebidos?
Não há problema algum em admirar e ter como ídolos gente deste e daquele país. Tem gente que tem talento e merece atingir a todos mermo. Mas como é que a obra desse povo atravessa os continentes e chega à gente aqui com tanta força, enquanto o que vem daqui se sufoca pra sair do bairro? Como é que todo o mundo conhece Charles Chaplin e poucos viram Mazzaropi?
Eu realmente acredito que a mescla de culturas realmente pode, sim, enriquecer as coisas. O que eu ‘tô falando aqui é que não dá pra misturar a dos outros com a daqueles outros outros – e deixar a nossa de lado. É isso que não pode.
Acho desnecessário, por exemplo, ficar usando uns estrangeirismos pra fazer as coisas parecer mais interessantes, quando há correspondentes bem normais no português – ao contrário de outros casos. Não agüento mais ver lojas em sale com tantos porcento off e workshops de tudo que é tipo. Hoje eu vejo, inclusive, a infeliz idéia que eu e minha antiga banda tínhamos de cantar em inglês, achando que poderíamos ser ouvidos por mais gente – enquanto a gente mal saiu do bairro - e agora gosto muito mermo de poder escrever no velho português.
Fico pensando que a gente deve ter orgulho daqui justamente pra fazer coisas melhorarem, e não ter orgulho só de certas coisas que já são boas. De vez em quando me pego imaginando se o Brasil não tivesse as boas coisas naturais que tem, ou se não tivesse o futebol que temos. Aí, sim, estaríamos fudidos. Mas ainda temos
o sol, muita água, bom clima, o futebol... Então ‘tá tudo bem.
A Copa, por exemplo, ‘tá vindo por aí e já fico imaginando o time ganhando e o povo todo cantando: sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor. E nas ruas, do lado de fora do estádio, o orgulho do brasileiro se mostrando na forma de assalto e enganação aos gringos otários – que adoram se enganar por aqui.
Só espero que, entre roubos, desvios e super-faturamentos, alguém consiga enfiar entre as arenas a construção d’um orgulho próprio. Quem sabe assim os turistas enganem de verdade com nosso país: venham procurando mulher pelada e só achem o bom futebol e uma melhor imagem.
Rodolpho de Siqueira
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