48: Fêssora
Quinta-feira, Julho 03, 2008
'Fêssora, acho que terminei.
Mas já?
É, eu gosto do tema. Foi tranquilo escrever. Né não, Rodrigo?
Mas foi muito rápido. Assim você acaba errando. Vá pensar mais um pouco, revisar o texto.
Precisa não, 'fêssora...
Hm, deixe-me ver.
É... dá aí a sugestão da senhora, que eu corrijo.
Hm... 'Tá vendo? Escrever tão rápido assim... só podia dar nisso. Seu texto está com alguns erros...
Ah, é, acho que esqueci do acento. Urubu tem acento?
Não é isso, menino. Isso é um texto dissertativo. A gente não deve usar 'eu acho', coisas desse tipo.
Ahn?
Não pode ser assim, tão pessoal.
Mas eu achei que era pra dizer o que eu achava. E olha que o Flamengo merecia pior...
Olha, o tema é futebol, que é pra estimular vocês, mas é um texto sério. Você tem que me convencer, passar credibilidade.
Ah...
Você deve escrever na terceira pessoa, que aí não soa pessoal, soa mais verdadeiro.
Como assim terceira pessoa?
Para quem está lendo, não pode parecer sua opinião, entendeu?
Mas aí eu faço o quê? Tipo, pergunto a alguém e escrevo? O Rodrigo num sabe de nada... Minha mãe nem entende de futebol... mas eu posso perguntar a ela assim mermo.
Não, menino... Só tem que passar credibilidade!
É mermo... nada a ver perguntar a minha mãe. Meu pai, sim! Meu pai lê bastante...Ele deve ser uma boa terceira pessoa. Ele deve ter esse negócio aí que a senhora 'tá falando. Acho que a senhora vai gostar.
Não é para perguntar a ninguém! Você tem que escrever suas idéias, mas parecendo que não foi bem você quem escreveu.
Ahh, sim. Isso é fácil, 'fessora. Era só dizer antes. Esse negócio de fingir é mole. Mentir pra ganhar cre.. credri.. credibilidade...Mas, ei! a senhora 'tá me falando a verdade, né?
Não! Digo... Não é isso! Não é mentir... Olha, deixa isso pra lá. Além de tudo, você tem que tomar mais cuidado. Seu texto está muito adjetivado.
Como assim... adjetivado? Tipo igual a senhora tinha dito, que adjetivo tinha a ver com qualidade? Até que enfim a senhora gostou de alguma coisa, hein...
Ai, meu Deus... Você está falando muito que fulano é isso, que é aquilo. Criticando com palavras fortes demais, quase xingando.
Mas professora... é o Flamengo!
Mesmo assim.
Ih, era melhor a senhora ter pedido pra falar de outra coisa então... E, olha só, a terceira pessoa sua m..., ô, minha mãe, meu pai, sei lá, já não 'tá achando graça nesse negócio de escrever, num tá entendendo mais é nada. E é segredo, mas pra senhora eu digo: a terceira pessoa sô eu!
* * * * * * * * *
Escrevi isso aí pensando nos outdoors que vejo pelo Recife. Vários e vários cursos intensivos de Redação, que vão realizar bem a tarefa de criar trauma de escrita nos alunos e, ainda assim, encher o bolso de dinheiro.
'Fêssora, acho que terminei.
Mas já?
É, eu gosto do tema. Foi tranquilo escrever. Né não, Rodrigo?
Mas foi muito rápido. Assim você acaba errando. Vá pensar mais um pouco, revisar o texto.
Precisa não, 'fêssora...
Hm, deixe-me ver.
É... dá aí a sugestão da senhora, que eu corrijo.
Hm... 'Tá vendo? Escrever tão rápido assim... só podia dar nisso. Seu texto está com alguns erros...
Ah, é, acho que esqueci do acento. Urubu tem acento?
Não é isso, menino. Isso é um texto dissertativo. A gente não deve usar 'eu acho', coisas desse tipo.
Ahn?
Não pode ser assim, tão pessoal.
Mas eu achei que era pra dizer o que eu achava. E olha que o Flamengo merecia pior...
Olha, o tema é futebol, que é pra estimular vocês, mas é um texto sério. Você tem que me convencer, passar credibilidade.
Ah...
Você deve escrever na terceira pessoa, que aí não soa pessoal, soa mais verdadeiro.
Como assim terceira pessoa?
Para quem está lendo, não pode parecer sua opinião, entendeu?
Mas aí eu faço o quê? Tipo, pergunto a alguém e escrevo? O Rodrigo num sabe de nada... Minha mãe nem entende de futebol... mas eu posso perguntar a ela assim mermo.
Não, menino... Só tem que passar credibilidade!
É mermo... nada a ver perguntar a minha mãe. Meu pai, sim! Meu pai lê bastante...Ele deve ser uma boa terceira pessoa. Ele deve ter esse negócio aí que a senhora 'tá falando. Acho que a senhora vai gostar.
Não é para perguntar a ninguém! Você tem que escrever suas idéias, mas parecendo que não foi bem você quem escreveu.
Ahh, sim. Isso é fácil, 'fessora. Era só dizer antes. Esse negócio de fingir é mole. Mentir pra ganhar cre.. credri.. credibilidade...Mas, ei! a senhora 'tá me falando a verdade, né?
Não! Digo... Não é isso! Não é mentir... Olha, deixa isso pra lá. Além de tudo, você tem que tomar mais cuidado. Seu texto está muito adjetivado.
Como assim... adjetivado? Tipo igual a senhora tinha dito, que adjetivo tinha a ver com qualidade? Até que enfim a senhora gostou de alguma coisa, hein...
Ai, meu Deus... Você está falando muito que fulano é isso, que é aquilo. Criticando com palavras fortes demais, quase xingando.
Mas professora... é o Flamengo!
Mesmo assim.
Ih, era melhor a senhora ter pedido pra falar de outra coisa então... E, olha só, a terceira pessoa sua m..., ô, minha mãe, meu pai, sei lá, já não 'tá achando graça nesse negócio de escrever, num tá entendendo mais é nada. E é segredo, mas pra senhora eu digo: a terceira pessoa sô eu!
* * * * * * * * *
Escrevi isso aí pensando nos outdoors que vejo pelo Recife. Vários e vários cursos intensivos de Redação, que vão realizar bem a tarefa de criar trauma de escrita nos alunos e, ainda assim, encher o bolso de dinheiro.
Rodolpho de Siqueira
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