terça-feira, 8 de julho de 2014



21: Juros

Segunda-feira, Agosto 29, 2005 

Faz um tempo, lá por entre 92 e 93, eu queria comprar uma coleção de bonequinhos de futebol gulliver. Me lembro bem que esse era o sonho dos moleques da minha idade. Eu ia lá na loja e ficava olhando, olhando... Até que eu, com 5 pra 6 anos, resolvi juntar dinheiro pra comprar - ainda que esse dinheiro, é lógico, não fosse meu diretamente. Comecei a tentar, e, toda vez que chegava lá, o preço tinha aumentado. Era uma desgraça. Era época de governo Collor, que por essas e outras acabou em impeachment e que tinha uma inflação cabulosa. Hoje, é diferente: é governo Lula - que sabe-se lá como vai acabar -, e a inflação já não é tão alta desda criação do Real. Mas isso, como todo resto das coisas, tem um preço. Os juros vem altos há tempos; e isso é uma merda. Nenhum de nós gosta, é claro, mas acho que, apesar disso, já devíamos tar acostumados. Na vida, parece que a natureza em si cobra juros altos. Sempre temos as coisas agora, pra acabarmos pagando mais caro depois. Preferimos o momento, o instante, ao resultado que vai ter depois. Quem é que não lembra do tal do Carpe Diem das aulas de Literatura ou da Sociedade dos Poetas Mortos? Pra aproveitar o presente, o homem chega a ser até irresponsável - ou burro. E isso não se restringe a nós, não. Parece que tem um marsupial aí que gasta tanta energia comendo a marsupiala, que morre logo em seguida. Que esperto ele, hein? Não, né. Nada mermo; mas é um bom exemplo do que eu tô falando. Entre nós, não chega a ser tão exagerado, mas também tem altos exemplos. Muitas vezes não pensamos numa AIDS ou numa gravidez indesejada só pra podermos aproveitar ali, na hora, sem camisinha. Cartões de créditos parecem que fazem todos esquecermos da dívida depois - que às vezes nem pode ser paga -, mas nos dão uma falsa realização instantânea. A gente dorme de menos e vive demais pra, quando for velho, dormir demais e viver de menos. E, claro, comigo não é diferente. Sustento uma cabeleira gigante, pra depois acabar ficando careca igual meu pai, coitado. Acabo escrevendo num blog depois da meia-noite, mermo sabendo que vou ficar com sono o resto da semana e ter que pagar em prestações de 50 minutos, pra, ainda assim, continuar devendo. Prefiro sempre passar um tempo com alguém mermo sabendo que depois vou embora, pra, mais tarde, quando for, acabar sentindo falta. Sentindo falta, saudade e, no fim, acabar sofrendo de certo modo. E, assim, vejo que não sou nem tão mais esperto que o marsupial. Mas acontece que vale a pena. Porque, no fim das contas, a gente acaba pagando uma breve vida com uma eternidade de descanso, silêncio e um grande nada. No fim das contas, o Tempo se revela é um grande agiota; e a Morte, com uma foice grande e uma cara feia, sua capanga de quem ninguém foge.
 
Rodolpho de Siqueira

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