Sexta-feira, Maio 13, 2011
Eu já disse aqui uma vez que, depois que a pessoa morre, pra maioria das que sobreviveram ela fica muito melhor – e tudo de uma vez! sem nem ficar melhor ao ir envelhecendo, como se fosse vinho. Mas uma outra coisa que eu não disse ainda é que ela fica melhor mermo é quando tá de longe. A gente é míope, eu acho. Eu sei que eu dizer isso agora não é novidade nem nada, mas eu só escrevi umas duas novidades na vida, e manterei a tradição de não fazê-lo. E o leitor com certeza não precisa de mim pra falar isso, porque já deve ter notado. Mas, se não notou, eu ajudo. É só a gente fazer uma procura rápida, que descobre: no Orkut tem uma comunidade, cheia de gente pra cacete!, que se chama “Quem é legal mora longe”, ou algo assim. Viu? Ela só deveria se chamar “Quem mora longe é legal”, pra ficar mais adequado.
A ajuda continua: eu acho que uma certa distância entre o admirador e o admirado é quase uma condição necessária para essa admiração exista. Quase. Não tô falando só de distância geográfica, apesar d'ela poder ajudar. Eu tô falando de uma distância no conhecer, uma ignorância do admirador com relação à verdadeira coisa admirada. Não é à toa, eu acho, que os grandes ídolos estão todos na mídia, na internet ou na tevê – pode perceber. Quer distância maior que essa – a distância sofá-televisão ou cadeira-pecê? Quem tá lá é inalcançável e, justamente por isso, perfeito. Se a pessoa passa a conhecer detalhes demais da vida do ídolo, pela minha hipótese, ele vai deixando de ser perfeito, e deixando de ser ídolo. Pra ser perfeito, tem que 'tar de longe, que é pra não dar pra enxergar os defeitos – e pensando assim a morte é só um caso particular de distância, maior ainda que a distância sofá-televisão! E todos os santos agradecem. Já pensou beatificar alguém vivo? Vai que o cara erra, faz besteira? Já pensou? “Que nada, cara... ele é alcoólatra e bate na mulher sim... mas, pô, ele fez aquele milagre lá!” Pensou, né? É melhor esperar morrer...
Se a gente conhece bem uma coisa, é fácil enxergar o que tem de errado com ela. Se a gente vê aquilo muitas vezes, a ponto de conhecer bem, uma hora a gente enjoa e enxerga o que não enxergava antes. Se até lasanha da Sadia enjoa se comida todo dia, qual a chance de tu achar uma pessoa perfeita pro resto da tua vida? A não ser que ela seja feita de arroz com feijão, tu provavelmente vai enjoar e deixar de admirar – e, em alguns casos, de comer!
Dado que tu tá enjoado, e enjoado de uma dada coisa, qualquer outra coisa fica melhor que aquela. Se só tiver lasanha pra comer, e tu tá enjoado de lasanha, o jiló parece incrível. O celular da outra pessoa é muito mais bonito. A namorada do outro é muito mais bacana. E assim parece que nada tá certo.
Não é certo, no entanto, que tu vá realmente enjoar. Eu disse “provavelmente”, e antes disso disse que a distância era uma condição quase necessária. É possível que a gente não enjoe, claro. No caso da lasanha, se a gente comer outras coisas, intercalando, leva a vida inteira sem enjoar dela. No caso de pessoas, repetir a sugestão acima substituindo “lasanha” por “pessoas” pode funcionar bem pra algumas pessoas. Mas também acho possível manter a admiração por alguém sem intercalar ninguém com coisa alguma.
Os meus pais são quem eu conheço de mais de perto, há mais tempo, sei todos os defeitos, não os intercalo com outros pais ou outras lasanhas, eles não são feitos de arroz nem feijão, e não deixo de admirá-los. Acho que a admiração mais verdadeira vem quando a gente vê as boas qualidades e as más, mas é capaz de perdoar as últimas, se as primeiras forem maiores. É lembrar do bom pra não enjoar. A diferença com os pais é que essa admiração já é meio intrínseca, na maioria dos casos. No caso de amigos, a gente escolhe aqueles dignos de admiração e de serem perdoados pelos defeitos - é uma família escolhida, como dizem. Já com marido e mulher, quase que por definição, é também um membro a mais escolhido para a família; é mais uma pessoa que, pelo lado bom, você julga digna de ser perdoada pelos defeitos de todo dia, e continua admirando até um certo dia.
Fazer isso, no entanto, é difícil pra cacete. Não é à toa que se tem tão poucos amigos de verdade e que muitos relacionamentos não dão certo. Continuar admirando alguém, vendo de perto todos os defeitos constantemente, e não enjoar é o mermo que perdoar todas e muitas vezes durante a vida - e, em alguns casamentos, até a própria vida acabar. Muito difícil. Por isso a gente, quando faz, faz com poucas pessoas. No entanto, parece que é uma necessidade nossa admirar algo ou alguém – imagina se tu achasse todo o mundo chato, burro, feio... então tem que arrumar um jeito mais fácil! Resolvido: com todas as outras que a gente ainda admira e acha interessante, ou a gente vê de longe e pode admirar pois não vê os defeitos, ou perdoa todos os defeitos uma única vez na vida - adivinha quando? exatamente quando a pessoa morre, pra depois então poder admirá-la. Muito mais fácil assim. Agora sim! tá tudo explicado pra mim.
Rodolpho de Siqueira
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É bom voltar aqui, hein.
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