Terça-feira, Maio 05, 2009
Foi dia desses, sem ter nada na cabeça pra escrever, que eu arrumei um assunto sobre o qual eu podia enrolar; foi mais ou menos como uma das redações que eu fazia no colégio – sempre soube que me serviriam.
Andei pensando e concluí que talvez eu pudesse escrever justamente sobre não ter assunto pra escrever. Não é brincadeira, nem nada; é uma posição muito séria que eu tenho, e que já explico. Olha bem: pra mim, o jeito em que vem embrulhado o conteúdo é quase tão importante quanto ele - eu não tô falando (só) de mulheres! Sô capaz de achar, inclusive, que um jeito bem feito tem valor até sem conteúdo. E agora a justifico a idéia, e justifico logo, antes que me critiquem, com o crédito inquestionável de quem me fez pensar nela: ZezédiCamargoeLuciano. Unamimidade na filosofia nacional, ele uma vez disse que, se fosse Chico Buarque quem cantasse as letras escritas pela dupla, todo o mundo acharia poesia; mas, como – espante-se! - não é o Chico quem as canta, alguns o taxam de brega. Pensei, pensei e não pude discordar. Na verdade acabei sendo bem simpático a idéia, e acabei por testá-la; por isso vim contar.
O primeiro teste da hipótese foi positivo: fui simpático a idéia mas não tive interesse de ouvir as letras com mais calma, isento de preconceitos, pra ver se prestavam - afinal, ele canta d'um jeito brega pra cacete! Ele não poderia ter acertado melhor. Era agora quase uma teoria. Continuei pensando, testando além das mulheres, e vi que gosto de muitas coisas por uma estética fundamental – pelo menos pra mim, e que não sei explicar -, sem elas precisarem ter razão de ser, ou conteúdo pra fazer pensar. Achei fantástico, por exemplo, quando li que Matisse, ao ser questionado sobre o porquê d'ele ter pintado uma mulher de verde, respondeu sem hesitar: 'Não é uma mulher; é um quadro!' - ou algo mais ou menos assim, já que a empolgação foi dada por mim. Mas, quando fui conversar sobre isso com uns amigos, cismaram até o fim que as coisas tem de ter um motivo: 'O que o verde representa? O que isso quer dizer?'. Pra mim, sei lá. Pode querer dizer qualquer coisa, ou nada, mas acima de tudo foi o jeito que autor julgou interessante, e que intessante parece a mim. Não precisa ter porquê, não. É bonito! É como uma música cuja a letra a gente não entende, mas gosta mesmo assim. Qual o problema? Eu julgo muito importantes as letras, e presto atenção em quase todas – porque eu particularmente me interesso se tô dançando loucamente enquanto me chamam de filho-da-puta ou algo assim – e acho umas muito relevantes até politicamente. Mas, se eu sei que o cara tá falando nadacomnada e a música ainda me cativa, não posso gostar dela ainda assim? Há melodias simplesmente incríveis por si só, e acabou o assunto.
Na literatura, também, acontece isso comigo o tempo todo. Eu simplesmente gosto muito da forma com que as coisas são escritas. Concordo muito com Guimarães Rosa, que parece ter dito que 'cada palavra é uma poesia'. Isso é muito verdade. Há mil formas de se escrever uma mesma coisa, mas uma me parece muito melhor que a outra, sem dúvida. Eu posso e tento – e já disse isso aqui antes – ver beleza em algo que foi escrito ainda que não concorde com a idéia. Posso achar tudo uma besteira, mas o faço várias vezes achando que aquilo foi muito bem escrito. Eu, por aqui, me preocupo com a forma com que escrevo - e eu sei que ao leitor ingrato não parece, mas é verdade! Penso no que falo, mas também no como vou falar. Não fico, não posso, nem quero ficar por horas lapidando algo, como um parnasiano, mas, pra mim, como o texto flui influi muito no prazer que se tem ao lê-lo. Acho até que bem escrever pouco tem a ver com o assunto sobre o que se escreve ou com os argumentos que se usa. Acho inclusive engraçado imaginar uma corretora de redação que só dá notas boas a quem a convence, e vai voltando pra alterar as notas daqueles que anteriormente a tinham convencido. Grande besteira. A gente não precisa convencer ninguém. Pra mim, quase basta só o jeito, pra que se escreva bem. Mas talvez se eu escrevesse de outro jeito, assim feito um Machado de Assis, tudo isso fizesse algum sentido, e eu conseguisse te convencer também. É só o jeito.
Rodolpho de Siqueira
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