terça-feira, 8 de julho de 2014




40: Calma, rapaz

Terça-feira, Outubro 02, 2007 

Vez ou outra, quando eu leio umas doutrinas que gosto ou vejo por aí umas figuras que as seguem, confesso que sinto certa inveja. Eles parecem sempre tão calmos, serenos. Nada parece abalar aquela tranqüilidade. É uma paz de espírito que por muitas vezes eu quis ter o tempo todo. Mas acho que já não é bem assim. Faz já algum tempo que eu comecei a mudar de idéia. Comecei a achar que serenidade é ótima; mas que, por incrível que pareça, a raiva pode ser boa. Vi que não precisava expulsá-la de mim assim, com tanta raiva. Ouvi meu amigo Zack dizer que ela era uma dádiva e passei a pensar melhor no assunto. Acabei vendo que a raiva é um sentimento injustiçado.

Todo o mundo fala do amor, que ele é sempre o máximo e coisa e tal – e ele é realmente muito bonito – mas o que ninguém diz é que, às vezes, a gente precisa é da raiva pra construir coisa que amor nenhum faria. Quase ninguém aceita que é preciso ter muita raiva, ou no mínimo indignação, pra mudar as coisas de lugar. Muitos não a assumem como uma coisa boa, mas gostam quando alguém, indignado, vai lá e faz o que era preciso, enquanto eles sentam e olham de longe, tranqüilos e calmos. É ela que nos tira o medo que nos faz não fazer nada. Se o medo existe, ela pode tirá-lo pelo menos por um instante, ainda que voltemos à covardia depois. É ela que, numa descarga de hormônios, faz o sangue ferver e os pêlos se eriçarem, a fim de dar coragem ao mais fracos dos homens pra defender um filho.

Agora... isso só acontece quando a raiva é daquelas ferventes, de verdade. Ela, como o resto mais bem visto da família dos sentimentos, só vale mermo ser for sincera. Essa aí, por exemplo, que a gente fala que tem dos políticos, é das falsetas, eu acho. Pelo menos a minha parece ser. Não esqueço quando vi, depois de tudo já comprovado, o tal do Severino Cavalcanti dar autógrafo na minha frente, no aeroporto, a um cara meio louco, no mínimo. A raiva era tanta e a coragem pra fazer alguma coisa só não era maior que o medo de fazer demais e acabar me fudendo. Não fiz nada.

Às vezes, de tanta coragem, raiva dá medo, medo de fazer o que não devia. Irônico. É com raiva e sem medo que tudo parece mais perigoso. Às vezes sinto como a expressão “morrer de medo” fosse a mais falsa das já feitas, e ficar de trás do medo me parece o mais seguro dos portos. Porque é só sem ele que a gente faz o que deveria e enfrenta a possibilidade de se fuder. Ou quem sabe de morrer. E os monges de Mianmar é que não me deixam mentir... Afinal, até budista tem raiva alguma hora.

Mas a gente, não. E os políticos adoram.
 
Rodolpho de Siqueira

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