Sexta-feira, Setembro 11, 2009
Faz um tempo que ouvi um amigo falar, ou alguém falar por ele, sobre sua especialidade - que de tal coisa ele não sabia, mas que outra coisa era a especialidade dele e numseioquê. Depois disso fiquei meio viajando e tal, coisa de moleque: mermão, o cara já tem uma especialidade! Eu, aqui do meu fim de curso, mal começo a decidir o que vô querer fazer da vida, e o cara lá já tem uma especialidade. E o pior é que eu mal começo a decidir o que aaacho que vô fazer d'um pedaaaço da minha vida, um pedaço que talvez nem dure muito, na verdade. Da vida toda, então, imagina aí! É que ao longo dela eu fui fazendo uma coisa, outra, e, quando descobria mais ou menos com elas funcionavam, mudava pra outra que não aquelas. Depois de uma certa idade, fazer muito de uma coisa só, pra mim, virou proibido. Teve uma época, antes, em que num era assim: eu já escrevi numa redação que meu sonho era ser campeão brasileiro de jiu-jitsu. Vê! Só uma criança mermo pra ser decidida assim - pode parecer estranho, mas eu tinha 7 anos; e o pior é que eu era bom, rapá... Daí o tempo foi passando e, em vez de campeão de jiu-jitsu, queria ganhar agora era no futebol. Era o primeiro sintoma, de muitos que ainda vieram: depois do futebol veio o canto; depois do canto, a natação; depois dela, o desenho, e isso, aquilo, e veio o violão... e nada. Em vez especialista em qualquer coisa, eu cheguei aos 22 anos fazendo um pouco de tudo, e sem saber tudo de nada.
Tem gente que critica isso e eu já até ouvi falar de uma tal de síndrome do pato, ou algo assim: ele nada mais ou menos, voa mais ou menos, quem sabe até bota ovo mais ou menos... algo assim. Acontece que ser especialista é saber cada vez mais sobre cada vez menos, isso sim, e isso sempre pareceu um saco pra mim. Meu prazer sempre foi aprender coisas novas, só pelo prazer de revirar o mundo. Assim eu fui revirando e virando, em vez de pato, um semiornitorrinco. E entre os bichos, pelo menos, fiquei com um mais interessante. Com pata de quem desenha, dedo de quem escreve, nariz de pica-pau e cabeça de engenheiro, fui me tornando um grande branco mestiço, totalmente misturado. Mas hoje já me parece, enfim, a hora de ir além em alguma coisa, me tornar um bicho mais alado. Pois nem o pato comum nem o ornitorrinco inteiro levantam vôo sozinhos. Nem com 22 anos, nem depois de formados.
Rodolpho de Siqueira
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