46: Alguém ajuda?
Quinta-feira, Abril 10, 2008
Há algum tempo eu quis ajudar alguém e desisti. Não foi por maldade.
Sei que falar isso logo agora, que 'tamos todos - tamos? - ajudando o
Tibete a se libertar, pode fazer parecer que eu sou um ditador chinês;
mas não é isso. Eu juro que acho que não é. É que, assim..., ajudar
alguém pode ser complicado. Podem até dizer que ajudar é bom - e quando
ajudo, às vezes, funciona; então desconfio que seja verdade. Acontece
que nem sempre é assim - e aí vejo que é verdade mais ou menos, verdade
de vez em quando, igualzin' a todas as verdades. Foi por isso - e não
por ser um ditador chinês - que dia desses deixei de dar minha sugestão
pra tentar ajudar um amigo meu. Alguns dias antes d'ele apresentar sua
tese, eu li alguns de seus textos e não dei minha opinião sincera. Achei
que, em vez de ajudar, poderia deixá-lo mais inseguro pra apresentação e
tudo o mais. Fiquei quieto. Passados alguns dias lá 'tava eu assistindo
a apresentação, torcendo e ouvindo alguém da banca criticar a
estruturação do texto do jeito que eu teria feito. Fiquei puto. Perdi
uma ótima oportunidade de não ficar calado. Não ajudei e poderia ter
ajudado. Fa-z-o-quê? Isso, afinal, é escroto demais. Num dá pra saber no
que vai dar. É como Fátima, que, querendo ajudar, sempre acerta e põe
tudo aqui em casa num lugar perfeito. Perfeito pr'eu nunca mais achar.
Vô fa-z-o-quê, cara? É complicado pra carai.
Quando a gente tá realmente convencido de que pode ajudar, aí a coisa ainda piora. Sabe aquela estória de que todo brasileiro é médico e técnico de futebol? A gente acha que sabe o que é bom pra doença, o que é bom pro time... Uma maravilha. Ninguém sabe o que é bom pra própria vida, mas pra saber de outras coisas é num instante. Alguns de nós têm profissão de palpiteiro e outros só são palpiteiros de profissão - os vizinhos que o digam. Se é pra dizer o que alguém não pode jogar, ler, ou até comer(!), sempre tem alguém inteligente. Ou, em outros casos, há também um juiz esperto que sabe o que faz - e não pára por aí. Formamos muitos, somos todos palpiteiros, somando-se os individuais. E, como somos todos palpiteiros e todos são a maioria, 'tá nas nossas mãos o poder de ajudar a impor nossos conhecimentos - de medicina, de futebol, de religião - naquela velha minoria - que ainda reclama, ingrata! Só queremos ajudar. São decisões democráticas; eles têm de aceitar. Afinal, nós sabemos o que é bom pra eles - a maioria sempre soube! sempre tomou as maiores decisões. Foi a maioria que gritou pela crucificação de Jesus e é também a maioria que, hoje, tenta - tenta? - seguir seus passos como a verdadeira das religiões. Sábias decisões. Teve também aquela maioria lá, não lembra?, que apoiou as medidas de genocídio d'um tal bigodudo. E ainda aquela outra que, pra ajudar os iraquianos, elegeu um conhecido orelhudo. Entrar em suas casas e ensinar a criar seus filhos, todas ótimas ajudas vindas de quem sabe o que é melhor pra todos sem nem perguntar. Porque, ainda que não tenhamos nada com o assunto, impor nossa ajuda parece ser o caminho e talvez nunca consigamos parar. Seja aqui, ali, ou pra lá de Bagdá.
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Se a maioria achasse bom se apossar de tudo que é da minoria, seria válido? Se ela proibisse alguém de ter tal religião, como já foi feito, seria bom?
Escolher pela maioria é realmente melhor que somente por alguns. Mas será que a escolha feita, em alguns temas, não pode ser de deixar que cada um escolha por si? Será que num é possível deixar alguém usar burca, guardar o detergente do lado direito e a roupa pendurada no chão, viver na matrix, usar coleira ou ser judeu, se assim ele quiser, ainda que não se goste? Acho que é, sim. Mas a gente quer ajudar. Porque a gente sabe o que é bom pro bem comum.
Quando a gente tá realmente convencido de que pode ajudar, aí a coisa ainda piora. Sabe aquela estória de que todo brasileiro é médico e técnico de futebol? A gente acha que sabe o que é bom pra doença, o que é bom pro time... Uma maravilha. Ninguém sabe o que é bom pra própria vida, mas pra saber de outras coisas é num instante. Alguns de nós têm profissão de palpiteiro e outros só são palpiteiros de profissão - os vizinhos que o digam. Se é pra dizer o que alguém não pode jogar, ler, ou até comer(!), sempre tem alguém inteligente. Ou, em outros casos, há também um juiz esperto que sabe o que faz - e não pára por aí. Formamos muitos, somos todos palpiteiros, somando-se os individuais. E, como somos todos palpiteiros e todos são a maioria, 'tá nas nossas mãos o poder de ajudar a impor nossos conhecimentos - de medicina, de futebol, de religião - naquela velha minoria - que ainda reclama, ingrata! Só queremos ajudar. São decisões democráticas; eles têm de aceitar. Afinal, nós sabemos o que é bom pra eles - a maioria sempre soube! sempre tomou as maiores decisões. Foi a maioria que gritou pela crucificação de Jesus e é também a maioria que, hoje, tenta - tenta? - seguir seus passos como a verdadeira das religiões. Sábias decisões. Teve também aquela maioria lá, não lembra?, que apoiou as medidas de genocídio d'um tal bigodudo. E ainda aquela outra que, pra ajudar os iraquianos, elegeu um conhecido orelhudo. Entrar em suas casas e ensinar a criar seus filhos, todas ótimas ajudas vindas de quem sabe o que é melhor pra todos sem nem perguntar. Porque, ainda que não tenhamos nada com o assunto, impor nossa ajuda parece ser o caminho e talvez nunca consigamos parar. Seja aqui, ali, ou pra lá de Bagdá.
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Se a maioria achasse bom se apossar de tudo que é da minoria, seria válido? Se ela proibisse alguém de ter tal religião, como já foi feito, seria bom?
Escolher pela maioria é realmente melhor que somente por alguns. Mas será que a escolha feita, em alguns temas, não pode ser de deixar que cada um escolha por si? Será que num é possível deixar alguém usar burca, guardar o detergente do lado direito e a roupa pendurada no chão, viver na matrix, usar coleira ou ser judeu, se assim ele quiser, ainda que não se goste? Acho que é, sim. Mas a gente quer ajudar. Porque a gente sabe o que é bom pro bem comum.
Rodolpho de Siqueira
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